11/09/2021 18h10
PIB avança só 0,4% em média desde 2012
Embora os analistas ouvidos pelo Estadão tenham divergências em suas projeções sobre a duração e a intensidade da inflação nos próximos meses, a maioria converge para a constatação de que o Brasil, há décadas, vive em um contexto propÃcio à estagflação. "O Brasil vive uma situação de estagflação há muito tempo. A economia não consegue crescer, mas a inflação acontece", afirma o economista-chefe da agência de risco Austin Rating, Alex Agostini.
Ele sustenta a sua observação ao citar que, nos últimos dez anos, de 2012 a 2021, a média de crescimento anual do PIB deverá ficar em 0,4%, e a da inflação anual ficará em 5,9% pelo IPCA.
Segundo o NovÃssimo Dicionário de Economia, organizado por Paulo Sandroni, "estagflação" é uma "situação" que ocorre na economia, quando "a estagnação ou o declÃnio do nÃvel de produção e emprego se combinam com uma inflação acelerada". É um quadro atÃpico, diferente do funcionamento "normal" das economias, conforme descrito pela teoria econômica clássica.
O funcionamento tÃpico parte do princÃpio que a dinâmica de preços passa, principalmente, pelo jogo entre oferta e demanda. Quando a economia cresce, empregos são gerados e a demanda aquece, favorecendo reajustes de preços e a inflação. Quando a economia se retrai ou cresce muito pouco, o desemprego sobe e a demanda esfria, arrefecendo a inflação. Os bancos centrais fixam suas taxas básicas, principalmente, para atuar sobre a demanda - mais crédito a juros baixos estimula a demanda, menos crédito a juros elevados produz o efeito inverso. Vários outros fatores, como expectativas e indexação, atuam na dinâmica de preços, mas uma economia estagnada não deveria ter inflação.
A "estagflação" não é um conceito teórico. Na explicação mais recorrente, o termo foi cunhado pelo parlamentar e ex-ministro britânico Iain Macloed, no Parlamento inglês em 1965. O rótulo colou e se popularizou nos mercados financeiros na década de 1970, por causa das crises do petróleo.
Choque na economia
Quando os principais paÃses produtores do Oriente Médio se organizaram para controlar a oferta de petróleo, os preços dispararam. Foi um choque de oferta inesperado, com efeitos atÃpicos sobre as economias. Os paÃses se viram com dificuldades para obter um importante insumo para a produção - portanto, para o crescimento econômico. Ao mesmo tempo, tudo o que tinha o petróleo como insumo ficou mais caro, e os reajustes chegaram ao consumidor. O resultado foi crescimento estagnado com preços em alta.
Quase meio século depois, a covid-19 foi outro choque inesperado. A necessidade de restringir o contato social desorganizou a economia mundial. Pelo lado da oferta, fábricas foram fechadas nos primeiros meses, o sistema de transporte marÃtimo travou e paradas de produção em cascata causaram escassez e encarecimento de componentes. Pelo lado da demanda, especialmente após os meses iniciais, as famÃlias deixaram de gastar com serviços e passaram a gastar com bens, movimento turbinado por polÃticas de transferência de renda em diversos paÃses. A combinação de oferta restrita com demanda elevada resulta em inflação, até na Europa e nos EUA.
Armando Castelar, coordenador da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), ressalva que o quadro atual é diferente , por exemplo, da estagflação do inÃcio dos anos 1990, quando "havia um descolamento: a demanda podia cair, a economia retrair, mas a inflação continuava. Não temos isso agora".
Para a economista e consultora Zeina Latif, o BC precisará de ajuda em seu trabalho. "Encaminhar melhor a questão fiscal reduziria a pressão sobre o dólar. Isso aliviaria o trabalho do Banco Central na polÃtica monetária e, indiretamente, nas expectativas inflacionárias", afirma. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo