13/01/2019 09h22
Previdência com capitalização tem avanço global
Influenciada pelo sistema criado no Chile dos anos 80, praticamente toda a América Latina já adota em seu programa previdenciário a capitalização - modelo que o governo Jair Bolsonaro quer implementar no PaÃs e no qual cada trabalhador tem uma conta individual para poupar a própria aposentadoria. As principais exceções ficam por conta de Brasil, Argentina, Paraguai e Venezuela. Na Europa, o modelo também avança, sobretudo diante de desequilÃbrios fiscais nas contas públicas dos paÃses.
A diferença do Chile para o restante do mundo é que, após a experiência problemática chilena, a maioria dos paÃses adotou o modelo como apenas um de seus pilares do sistema previdenciário. O modelo hÃbrido, que predomina hoje globalmente, costuma ter um pilar de proteção social (bancado pelo governo e para o qual não é preciso ter contribuÃdo para receber o benefÃcio), um de repartição (atual sistema brasileiro, onde os trabalhadores atuais bancam a aposentadoria dos inativos) e um de capitalização.
Inglaterra, Nova Zelândia, Hungria e Polônia, entre outros, possuem um componente de capitalização obrigatório em seus sistemas hÃbridos. Nos latino-americanos Peru, El Salvador e República Dominicana, a capitalização também é obrigatória. Já na Colômbia, os trabalhadores podem escolher o sistema.
Em parte dos paÃses, a capitalização funciona como uma previdência complementar compulsória. Para estimular o trabalhador a poupar em suas contas individuais, os governos têm estabelecido um teto baixo para o benefÃcio do pilar de repartição, o que ajuda também a reduzir os déficits previdenciários dos paÃses.
Na Dinamarca, por exemplo, o teto da repartição fica ao redor de US$ 1 mil, destaca Felipe Bruno, lÃder da área de Previdência da consultoria Mercer no Brasil. Se o trabalhador quiser receber mais que isso na velhice, precisa poupar na conta própria.
Segundo levantamento da Mercer, a Dinamarca tem hoje o segundo melhor sistema previdenciário do mundo, atrás da Holanda - ambos os modelos são parecidos e adotam os três pilares. Na metodologia da consultoria, os sistemas dos dois paÃses receberam nota 80, em escala de 0 a 100. O Brasil fica com 56,5 pontos, o que o coloca na 21.ª colocação entre 34 paÃses. Quando se considera apenas o subindicador adequação (que avalia os benefÃcios da Previdência), o Brasil sobe para o 7.º lugar; mas, quando se analisa a sustentabilidade do sistema, o PaÃs fica na 4.ª pior posição.
"As notas mais baixas costumam ser de paÃses onde há problemas demográficos e com o valor das aposentadorias se aproximando do último salário do trabalhador", diz Bruno.
Pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento mostra que os brasileiros que se aposentam por idade costumam receber 80% dos seus salários e os que se aposentam por tempo de contribuição, 52%. A média da América Latina para sistemas de repartição é de 65%.
Desafios
A implementação do pilar de capitalização em um sistema previdenciário costuma ser mais difÃcil quando a situação fiscal do paÃs é delicada, como o caso brasileiro. Isso porque parte dos recursos arrecadados com os atuais trabalhadores deixa de ser destinada aos aposentados e passa a migrar para contas individuais.
A transição também é mais complicada quando a taxa de contribuição dos trabalhadores e empresas já é elevada - acima de 18% -, segundo especialistas. A dificuldade aà decorre da necessidade de se aumentar a contribuição para ser possÃvel financiar a transição. Nos paÃses em que não há espaço para um aumento da alÃquota, o governo costuma ter de reduzir os benefÃcios do sistema antigo.
Em alguns paÃses do Leste Europeu que tentaram incluir o pilar de capitalização, a transição foi interrompida na crise de 2008 por causa desses entraves. No Brasil, as alÃquotas que recaem sobre o trabalhador variam de 8% a 11%.
Chile
Pioneiro na Previdência de capitalização, o Chile passou a ser alvo de crÃticas quando a primeira geração de trabalhadores enquadrada no modelo começou a se aposentar, nos anos 2000.
Com um grande número de trabalhadores informais, que nunca pouparam para suas aposentadorias, o Chile passou a ter milhares de idosos sem nenhuma fonte de renda. O problema levou o governo de Michelle Bachelet a criar em 2008 um pilar solidário, que garante uma renda mÃnima mesmo para quem nunca contribuiu. Resolvida essa questão, o paÃs enfrenta agora outro problema: o baixo valor do benefÃcio dos aposentados.
Segundo pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), os chilenos que se aposentam recebem o equivalente a 38% dos salários de quando estavam na ativa. No Brasil, para quem se aposenta por idade, o porcentual é de 80%.
Além do aumento da expectativa de vida, questões relacionadas à administração das pensões explicam o atual problema previdenciário. O economista Flávio Ataliba, que ajudou no desenvolvimento da proposta hÃbrida do ex-candidato Ciro Gomes, explica que as aplicações financeiras feitas pelos gestores de aposentadorias do Chile foram muito pulverizadas. Diante de baixos retornos, as taxas de administrações cobradas por esses gestores passaram a pesar mais, chegando a 20% em alguns casos.
O economista Paulo Tafner - que elaborou uma proposta de sistema hÃbrido para o Brasil, ao lado do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga - destaca que a concentração no mercado de administradoras de aposentadorias também prejudicou o sistema chileno, pois permitiu taxas de administração mais altas. "É um problema de regulação econômica. Por isso, estamos propondo que se crie também uma (empresa de) administração que seja pública, para pressionar as taxas para baixo e criar concorrência."
O economista frisa ainda que o sistema de capitalização chileno foi uma experiência inovadora, embora muitos ressaltem apenas aspectos ruins. "É preciso lembrar que, apesar dos muitos problemas, o paÃs só começou a crescer de forma sustentável depois da reforma adotada."
Na tentativa de resolver os atuais impasses previdenciários chilenos, o governo de centro-direita de Sebastián Piñera encaminhou uma proposta para o Congresso para que as empresas passem a colaborar com as aposentadorias. Hoje, apenas o trabalhador é responsável por contribuir, com 10% de seu salário. A proposta de Piñera é que os empregadores recolham outros 4%.
Seguindo os passos do Chile, o México é outro que, em breve, deverá enfrentar problemas com baixas aposentadorias. O paÃs adotou um modelo semelhante ao chileno, com quase 100% de capitalização, mas alÃquotas de contribuição inferiores à s do sul-americano, além de altas taxas de administração. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo