17/06/2021 08h30
Procura-se verba para Bolsa Família a R$ 300
Um dia após o presidente Jair Bolsonaro anunciar que o Bolsa FamÃlia pagará em média R$ 300 a partir de dezembro de 2021, técnicos do governo passaram a discutir a viabilidade de acomodar a proposta dentro do espaço fiscal existente para o ano que vem. Segundo apurou o Estadão/Broadcast, a avaliação é que, mantida a orientação do presidente, a área econômica terá de dar um jeito para encontrar a fonte de financiamento para uma ampliação dessa magnitude no valor do benefÃcio.
Como revelou a reportagem, o anúncio pegou integrantes do governo de surpresa, uma vez que o valor médio que norteava todas as simulações até então era de R$ 250. Ainda na noite de terça-feira, 15, técnicos alertaram que a elevação da média para R$ 300 não cabe no teto de gastos, a regra que limita o avanço das despesas à inflação.
No Palácio do Planalto já há um esforço concentrado para encontrar uma solução para o impasse e garantir um benefÃcio no valor prometido por Bolsonaro, em uma espécie de "jogo de estica e puxa". Após a fala do presidente, fontes reafirmaram nos bastidores que o benefÃcio médio deve ficar em R$ 300.
Os candidatos a cortes, porém, estão sendo avaliados com cuidado devido ao histórico recente. O presidente já abortou o lançamento de um programa social turbinado em 2020 depois que a equipe econômica sugeriu cortes no abono salarial ou congelamento de aposentadorias para obter os recursos necessários. Na época, Bolsonaro avisou que não iria "tirar de pobres para dar a paupérrimos".
Na área econômica, uma das alternativas possÃveis para compatibilizar a medida com o teto de gastos seria conceder um reajuste de R$ 300 sem reestruturar o Bolsa FamÃlia. No entanto, isso significaria que todos os auxÃlios extras, como bolsas de mérito escolar, esportivo ou cientÃfico, ficariam sob risco de serem sepultados. Essa via enfrenta resistências nas demais áreas do governo.
No Planalto, a mensagem é de que "vai haver" reformulação do programa.
Calibragem
Segundo apurou o Estadão/Broadcast, o novo desenho do Bolsa FamÃlia já está pronto e pode ser "calibrado" de acordo com o novo valor anunciado pelo presidente, desde que haja fonte de financiamento. Neste ano, o Bolsa FamÃlia tem R$ 34,8 bilhões reservados no Orçamento, dinheiro que será suficiente para bancar a ampliação do programa em 2021. O maior problema é 2022.
Além do valor atual, a despesa deve crescer R$ 18,7 bilhões com a reformulação, valor que considera um benefÃcio médio de R$ 250. Com R$ 300, o gasto fica ainda maior, diante de um espaço de cerca de R$ 25 bilhões no teto de gastos.
Economistas do mercado financeiro já começaram a calcular o quão maior pode ficar o gasto com o Bolsa FamÃlia, caso o valor médio fique mesmo nos R$ 300 anunciados pelo presidente. O economista Gabriel Leal de Barros, sócio e economista-chefe da RPS Capital, estima que o incremento pode ser de R$ 22,6 bilhões, considerando 16 milhões de famÃlias beneficiárias, ou até R$ 29,8 bilhões, para 18 milhões de famÃlias.
Hoje, o Bolsa é pago a 14,7 milhões de famÃlias. No entanto, o governo não poderá manter o alcance atual do programa por causa de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que na prática manda o governo zerar a fila do programa, que hoje tem ao menos 1 milhão à espera do benefÃcio. Por isso, a calibragem deve se dar mais no valor do que no número de famÃlias contempladas. Como mostrou o Estadão na terça-feira, o governo prevê atender 16,7 milhões de famÃlias com o novo desenho do programa.
Projeto de lei
Enquanto os detalhes finais do programa são ajustados, o governo prepara um projeto de lei complementar para mexer na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e na Lei Complementar 173 e destravar o lançamento do novo Bolsa FamÃlia. A necessidade desses ajustes foi antecipada pelo Estadão/Broadcast em 22 de maio. Segundo técnicos ouvidos pela reportagem, é preciso afastar pontualmente alguns dispositivos dessas leis que vedariam a ampliação de gastos obrigatórios neste ano.
O governo também deve encaminhar um projeto de lei ao Congresso Nacional (PLN) para alterar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2021 com o mesmo objetivo. Técnicos alertam que é preciso agilizar a aprovação dessas propostas no Legislativo, pois elas precisam ser sancionadas antes da edição da Medida Provisória que reformulará o Bolsa FamÃlia.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo