11/11/2019 13h10
Retomada da economia pode destravar carteira de R$ 1 tri em 'créditos podres'
A foto ao lado de uma Ferrari gerou muitos cliques no Instagram, mas também foi a pista que a Enforce, controlada pelo BTG Pactual, precisava para executar a cobrança de uma dÃvida milionária que esse devedor se recusava a pagar, alegando não ter condições financeiras. Empresas especializadas em recuperação de débitos em atraso, os chamados créditos podres, têm usado cada vez mais a inteligência artificial para levantar parte dessas dÃvidas consideradas já perdidas.
O tamanho do mercado de dÃvidas em aberto no Brasil - de pessoas fÃsicas e empresas - é estimada em cerca de R$ 600 bilhões até o segundo trimestre deste ano, valor considerado recorde, segundo a Prime Yield, consultoria portuguesa de avaliação patrimonial. Mas, se considerado dos débitos acumulados nos últimos 15 anos, chega a quase R$ 1 trilhão: R$ 915 bilhões, sem correção da inflação, de acordo com levantamento da Ivix, especializada em reestruturação de empresas em crise, a pedido do jornal O Estado de S. Paulo.
"Até há pouco tempo as negociações de créditos podres no Brasil não existiam, estavam mais restritas à s carteiras de pessoas fÃsicas. Esse mercado ganhou maior importância depois da recessão, quando as empresas passaram por um dos seus momentos mais crÃticos, engrossando os pedidos de recuperação judicial e falência", disse Pedro Guizzo, sócio da Ivix.
"Com a expectativa do crescimento do PIB brasileiro, o mercado de inadimplência tornou-se atraente para agentes internacionais que buscam investimentos estruturados e podem contribuir para o saneamento de empresas e setores da economia", destacou Nestor Rêgo, presidente da Prime Yield.
A carteira de inadimplência do mercado imobiliário, por exemplo, tornou-se mais valorizada para esses negociadores, uma vez que o setor ensaia uma retomada mais robusta.
Concentração
Os cinco maiores bancos concentram o bolo dessas dÃvidas, de acordo com Guizzo. No levantamento feito pela Ivix, o Itaú responde pelas maiores perdas (de cerca de R$ 250,4 bilhões no acumulado de 2004 até primeiro semestre deste ano), seguido pelo Banco do Brasil (R$ 218,5 bilhões), Bradesco (R$ 172,5 bilhões), Santander (R$ 141,7 bilhões) e Caixa Econômica Federal (R$ 131,6 bilhões).
Para Guizzo, o potencial é de recuperar entre R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões desse montante total. "As dÃvidas corporativas são mais recuperáveis (respondem por um pouco mais da metade dos quase R$ 1 trilhão). As chances são de recuperação de 30% desse montante corporativo entre 18 meses e 24 meses."
Com uma carteira de inadimplência de R$ 35 bilhões, a Enforce, do BTG Pactual, vê um ambiente mais favorável para recuperação desses créditos daqui para frente, uma vez que o mercado brasileiro ganha maturidade nesse setor. "Os bancos têm dois caminhos: ou eles mesmos correm atrás desses créditos ou contratam empresas especializadas nisso", afirmou Alexandre Câmara, presidente da Enforce.
A empresa do BTG foi criada no fim de 2016, um ano depois de o banco de André Esteves ter vendido a Recovery, especializada em recuperação de crédito, para o Itaú, que também aposta no crescimento desse mercado.
Fundada em 2010, a gestora de recursos Jive tem cerca de R$ 3,2 bilhões sob gestão, com cerca de 8 mil processos de cobrança nas ruas. "A digitalização aumentou a velocidade de andamento dos processos judiciários e melhora a perspectiva de recuperação de parte dessas carteiras", afirmou Guilherme Ferreira, sócio da gestora.
Em agosto em 2015, no auge da recessão, a Jive levantou um fundo de R$ 500 milhões - que resultou em investimentos de R$ 1,16 bilhão até janeiro de 2018.
Crise.
"Durante a crise, entre 2015 e 2016, os bancos ainda não tinham informações suficientes sobre o potencial de recuperação da saúde financeira de seus clientes, nem espaço para otimizar essas vendas de créditos. Havia um risco de piora da crise. Eles preferiram aguardar. O momento atual é mais benéfico para que todos os agentes recupere parte desses créditos."
Procurados, Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil não comentaram. A Caixa não retornou aos pedidos de entrevista. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo