15/08/2020 07h20
Setor vê 'jogada comercial' da China em notícia sobre frango com covid-19
O dia seguinte da divulgação de que autoridades municipais de Shenzhen, na China, teriam encontrado traços de coronavÃrus em uma embalagem de carne de frango importada do Brasil foi marcado por questionamentos do setor exportador brasileiro sobre as razões por trás da divulgação da notÃcia. Embora a China não deva anunciar embargo à carne do Brasil - seu principal fornecedor de proteÃna animal -, a divulgação já prejudicou o produto nacional. Segundo fontes, a divulgação pode ter motivos polÃticos e comerciais.
Mesmo com especialistas de todo mundo insistindo que a chance de transmissão do coronavÃrus por alimentos é muito remota, as Filipinas anunciaram ontem suspensão temporária do recebimento de carne de frango do Brasil. O PaÃs hoje fornece cerca de 20% de todo o consumo dessa proteÃna ao paÃs.
À medida que a notÃcia se espalha, o PaÃs corre riscos de mais prejuÃzos, segundo o presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB), José Augusto de Castro. Isso porque os principais clientes do frango brasileiro ficam na Ãsia e no Oriente Médio. De janeiro a julho de 2020, a exportação do produto somou US$ 4,1 bilhões, alta de 11% em relação ao mesmo perÃodo de 2019.
Para Castro, há a chance de o Brasil estar sendo usado pela China para fazer um aceno aos Estados Unidos em um momento difÃcil da relação entre as duas potências. "A China quis cutucar o Brasil para preservar os Estados Unidos, em um momento difÃcil da relação. Estão fazendo a polÃtica de boa vizinhança, com fundo comercial", disse. Ele criticou a posição "passiva" do Brasil em relação à China e afirmou que é necessário que o PaÃs defenda seus interesses em questões comerciais.
O presidente do conselho da BRF, Pedro Parente, também tocou na questão dos interesses chineses na tarde de quinta-feira, durante evento em São Paulo. Parente disse que, embora o PaÃs precise manter "excelentes relações" com seu principal cliente de proteÃna animal, a notÃcia sobre o frango brasileiro "tem uma conotação comercial". "Sabemos é que, por uma questão de reincidência de covid-19 na China, era necessário encontrar (...) uma desculpa para explicar um fato sem que ele fosse de responsabilidade interna", frisou o executivo.
A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou ontem que ainda aguarda mais informações da China sobre o caso - reiterando que a situação ainda não foi confirmada oficialmente. No entanto, o governo pretende mandar um recado forte ao mercado ao reagir à ação das Filipinas.
A Associação Brasileira de ProteÃna Animal (ABPA) ressaltou ontem que a barreira filipina ao frango brasileiro não segue nenhum critério técnico ou sanitário - baseia-se apenas na notÃcia veiculada pela China.
Contaminação
Ao Estadão, o consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, Marcelo Otsuka, lembrou que, por se tratar de um alimento industrializado, é difÃcil que o frango exportado estivesse contaminado. "A questão da presença do vÃrus é muito questionável, porque seria preciso que ele se mantivesse viável por 40 dias, considerando o perÃodo em que saiu do Brasil até chegar na China. O mais provável é que a presença do vÃrus tenha se dado pela manipulação do produto lá."
O que a China avalia não é a presença do vÃrus, mas material genético do vÃrus. "Há uma diferença aÃ. É um rastro, significa que o vÃrus esteve lá. Pode inclusive ser o material genético de um vÃrus morto. Mesmo que estivesse vivo, não sei se haveria uma quantidade suficiente para causar uma infecção", disse.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo