25/06/2018 12h12
'Situação fiscal é muito frágil na região', diz Carlos Végh, do Banco Mundial
Não é só o Brasil que vive dias difÃceis nas contas públicas. Os problemas fiscais se espalharam pela América Latina após um perÃodo de gastança. "A situação fiscal é muito frágil. É um grande desafio macro que a região enfrenta hoje", diz Carlos Végh, economista-chefe do Banco Mundial para América Latina e Caribe.
O uruguaio alerta ainda que outro problema aparece diante dos juros em alta nos Estados Unidos: vários paÃses devem enfrentar o dilema entre subir o juro para proteger a moeda ou manter taxas baixas que ajudam o crescimento.
Como está hoje o quadro fiscal dos paÃses da América Latina?
A situação fiscal é muito frágil. É um grande desafio macro que a região enfrenta hoje. Pense que 31 entre 32 paÃses tiveram déficit nominal em 2017 (a Ilha Granada foi a única com resultado positivo), 53% deles (17) com déficit primário. A dÃvida é também alta para paÃses em desenvolvimento. O fato é que os déficits fiscais continuam a alimentar a dÃvida dos paÃses da região, que está agora em 57,6% do PIB.
O relatório mostra que a situação fiscal é pior nos paÃses da América do Sul do que no México, Caribe e América. Por quê?
O déficit fiscal médio para a região é de 2,4% do PIB. Mas na América do Sul é 4%, mais que o dobro que em México, Caribe e América (1,9%). O fato é que muitos paÃses desse último grupo mostram um superávit primário, o que é mais raro entre os da América do Sul. Vários fatores contribuÃram para a deterioração fiscal na América do Sul. Mas a maioria dos governos não conseguiu poupar o suficiente durante a "Década de Ouro" de 2003 a 2012, quando os preços das commodities eram extremamente altos e, em vez disso, gastavam a maior parte do lucro.
Alguns dos gastos foram sem dúvida importantes para melhorar as condições sociais. Mas um princÃpio fundamental das finanças públicas é que as despesas permanentes só devem ser financiadas por aumentos permanentes em receitas. Aumentar gastos permanentes com receitas temporárias certamente semeou os problemas fiscais futuros. Há pouca dúvida de que os paÃses devem se engajar em ajustes já.
Qual o custo do ajuste?
O custo do ajuste feito com choque é muito maior. Nossa recomendação é que ele seja gradual. Isso não significa não fazer ajuste fiscal. Você sabe que as pessoas na Argentina atribuem a situação atual à decisão do presidente Macri de fazer um ajuste fiscal gradual em vez de um choque. Acho que foi uma escolha correta da parte dele. O que está acontecendo na Argentina não é resultado de ter havido ajuste fiscal gradual ou choque. É basicamente não ter um ajuste fiscal.
Os argentinos não estão fazendo ajuste?
Não. O problema não é o ajuste gradual. É a falta dele. Agora, com o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), eles têm uma agenda para reduzir o déficit fiscal de maneira bem gradual.
E nos outros paÃses como está a situação?
Alguns paÃses estão fazendo ajustes fiscais graduais e sérios, como Colômbia, México. E outros paÃses claramente precisam fazer mais.
Qual o risco do aumento dos juros nos EUA?
A normalização da polÃtica monetária finalmente está aqui após três anos se ouvindo falar dela. Isso significa que o dólar ganha força e fará com que aumente o custo de crédito dos paÃses da América Latina. Entramos no que chamamos de dilema de polÃtica monetária que a maioria dos bancos centrais da região vão enfrentar. Como as moedas ficarão mais fracas, em geral a economia começa a crescer mais devagar. Então, se tem o grande dilema: devo aumentar a taxa de juros para se defender apesar do possÃvel custo para a economia?
Os paÃses estão passando por esse dilema agora?
Isso tem sido a história da América Latina nos 20 ou 30 anos. O dilema: o que você faz? Aumenta a taxa de juros para se proteger ou você faz como o Chile que tem baixa taxa de juros. Eles dizem, no Chile, que não há problema com a depreciação (cambial) de 10% ou 15%. O paÃs tem muita credibilidade, o capital não vai sair do paÃs e eles optam por manter a taxa de juros baixa para estimular a economia, mesmo se houver um pouco mais de depreciação. Se você olhar as evidências, a maioria dos demais paÃses, como México, Brasil, Uruguai e Argentina, escolhem defender a taxa de câmbio aumentando os juros.
O que o sr. acha que vai acontecer no Brasil?
É difÃcil dizer. Todo banco central define qual deve ser a sua prioridade. Mas não há dúvidas de que nos próximos seis, oito meses ou talvez mais, muitos bancos centrais vão enfrentar esse dilema. Olhe o México. Eles tinham plano de reduzir a taxa de juros. Mas, por causa do Nafta, das incertezas polÃticas e outros fatores, eles decidiram aumentar. Eu acho que os bancos centrais vão literalmente, de reunião em reunião, enfrentar essa situação.
Está faltando credibilidade para esses paÃses?
Não acho que é falta de credibilidade. É mais um ambiente externo difÃcil. Há incertezas polÃticas em muitos paÃses. Há incerteza em relação à normalização monetária nos EUA e agora vai começar na Europa. Especialmente no front monetário, a maioria dos paÃses está fazendo um trabalho bom. Pense no fato de que a taxa de inflação média, excluindo Venezuela, está em torno de 3%. Isso é inacreditável. A taxa média de inflação era em torno de 200% nos anos 90. Os bancos centrais vão fazer o que acharem que é o melhor e minha aposta é que eles vão fazer o que é certo. A parte fiscal é um pouco mais frágil. Na Argentina, é claro, Uruguai também...
No Brasil também?
Sim. No Brasil também.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo