04/07/2021 16h10
'Super-ricos' vão bancar maior parte da arrecadação com taxação de dividendos
Metade dos R$ 54 bilhões que o governo espera arrecadar com a volta da tributação sobre lucros e dividendos deve ser paga por 20 mil pessoas com renda média anual de R$ 15 milhões e patrimônio médio de R$ 67 milhões. Esse grupo está no topo da lista dos 3,6 milhões de contribuintes no Brasil que receberam R$ 480 bilhões de rendimentos com lucros e dividendos distribuÃdos pelas empresas para remunerar o capital investido pelos sócios.
As estimativas foram feitas pelo economista Sérgio Gobetti, a pedido do Estadão, com base nos dados das declarações de Imposto de Renda de 2020.
O fim da isenção - benefÃcio em vigor há 25 anos no PaÃs - está no projeto de reforma do IR apresentado pelo governo e se transformou num cabo de guerra entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e empresários e investidores do mercado financeiro, que alegam que a medida vai aumentar a carga tributária. No projeto, o governo propôs ao Congresso uma alÃquota de 20%, com exceção para os acionistas que recebem R$ 20 mil mensais (R$ 240 mil por ano) de micro e pequenas empresas.
Com base em dados oficiais, as simulações mostram que a taxação de 20% poderia render cerca de R$ 69 bilhões anuais, sendo que 48% seriam pagos por contribuintes com renda superior a 320 salários mÃnimos mensais (hoje, R$ 352 mil).
Especialista no tema, Gobetti alerta, porém, que as grandes empresas deverão passar a reter volumes significativos de lucros para fugir da nova tributação, reduzindo na prática a arrecadação efetiva do novo imposto. Além disso, ele estima que outras isenções ainda mantidas no mesmo projeto custem cerca de R$ 27 bilhões.
Sem as isenções e sem as retenções, a tributação de 20% sobre dividendos somaria cerca de R$ 100 bilhões, já que o volume de lucros distribuÃdos chegou a R$ 480 bilhões em 2019, segundo dados da Receita.
Se a mudança for aprovada pelos parlamentares, espera-se uma arrecadação de apenas R$ 18 bilhões no próximo ano, porque as empresas tendem a antecipar o pagamento de dividendos referentes a este ano para evitar a tributação. Já a partir de 2023, a expectativa é chegar a R$ 54 bilhões.
Reação. A proposta de tributar dividendos e também extinguir a principal dedução que as empresas podem utilizar hoje no pagamento do seu IR - os chamados Juros sobre Capital Próprio (ver abaixo) - tem sido atacada pelo mercado e por tributaristas. Argumenta-se que a tributação combinada dos lucros ao nÃvel da empresa e da pessoa fÃsica poderá ultrapassar os 43%, o que corresponde ao patamar hoje praticado por paÃses mais desenvolvidos. Eles avaliam que essa carga tributária, embora parecida com a média dos paÃses da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), seria muito alta para um paÃs como o Brasil e numa situação de crise como a atual.
Para o especialista em Direito Tributário e sócio-fundador do LLH Advogados, Eduardo Lustosa, a maioria do empresariado perde com a reforma. "Fica claro que haverá aumento da carga tributária para as empresas." Para ele, a tributação dos lucros e dividendos poderá levar a companhia a reduzir a distribuição dos resultados aos acionistas para reinvestir eventual lucro adicional, o que, a longo prazo, implicaria valorização da empresa.
"O que ainda não se pode prever é se, com o atual cenário de instabilidades, o investidor apostaria em uma valorização a longo prazo. Assim, a curto prazo, as empresas não são beneficiadas pela reforma. A longo prazo, pode ser uma aposta, para os casos de reinvestimento no lugar de distribuição de lucros."
Alguns especialistas, porém, discordam dessa abordagem, alegando que a redução do IR das empresas também prevista na proposta do governo, embora pequena, pode ter efeitos benéficos para a competitividade das empresas brasileiras e que, ao contrário, a tributação sobre dividendos distribuÃdos aos sócios não afetaria negativamente os investimentos, visto que hoje o Brasil é um dos poucos paÃses do mundo que isentam esse tipo de renda.
Além disso, a retenção de lucros pelas empresas, para fugir da tributação imediata, pode estimular novos investimentos, como ocorreu na França depois do aumento promovido na tributação de dividendos em 2013. Estudo de pesquisadores da Universidade de Princeton, que tem circulado entre economistas brasileiros, mostra que a retenção de lucros pelas empresas francesas não só aumentou os investimentos, como também as vendas, visto que a maior poupança das empresas permitiu que elas oferecessem melhores condições de pagamento aos seus clientes.
Consultor de polÃtica tributária para o FMI, Banco Mundial e governo da Austrália, o brasileiro Ricardo Varsano diz que foi um erro a isenção concedida no Brasil. "A maior parte dos outros paÃses tributa dividendos. Os Estados Unidos é o paÃs mais capitalista do mundo e tributa dividendos", afirma. Segundo ele, essa tributação é distributiva de renda porque "pega" muito mais as pessoas de renda alta. "Quem é acionista de empresa no Brasil é classe média para cima."
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo