29/03/2022 09h30
Atleta do tiro com arco quer ser 1º indígena a representar Brasil numa Olimpíada
O indÃgena Gustavo Santos, 25 anos, domina o arco e a flecha. É capaz de caçar animais no meio da mata e pescar peixes no rio com facilidade. A sua habilidade com o instrumento lhe ajudou a se tornar um atleta profissional da modalidade. Gustavo trocou o arco nativo pelo olÃmpico e desde 2019 integra a seleção brasileira.
Com o apoio do projeto Arquearia IndÃgena, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), busca se tornar o primeiro atleta indÃgena a representar o Brasil em uma edição dos Jogos OlÃmpicos.
Gustavo, ou melhor, Ywytu, seu nome indÃgena que significa vento, é nascido na comunidade Nova Canaã, no baixo Rio Negro, interior do Amazonas, Estado considerado o segundo polo de formação de atletas, atrás do Rio de Janeiro. Sua trajetória no tiro com arco profissional começou aos 16 anos, em 2014, quando foi descoberto pelo Projeto Arquearia IndÃgena, da FAS.
Ele viu que levava jeito e decidiu apostar na modalidade. Passou pela seleção brasileira de base, começou a alcançar resultados expressivos nacionalmente e a competir em torneios internacionais. Foi bicampeão brasileiro por equipes e também nas duplas mistas e prata nos Jogos Sul-Americanos. Mas ainda não alcançou o maior sonho: tornar-se um atleta olÃmpico.
"No meu primeiro campeonato, não passei sequer da primeira fase. Já aprendi muito ao longo do percurso. Cresci bastante", diz o arqueiro ao Estadão. "O que falta no meu currÃculo esportivo é uma OlimpÃada. Quero ser o primeiro indÃgena do Brasil nos Jogos OlÃmpicos", salienta o atleta, que ficou em décimo na seletiva para Tóquio, fora, portanto, dos classificados.
O Brasil mandou para Tóquio dois arqueiros, um de cada gênero: Marcus Vinicius D'Almeida e Ane Marcelle dos Santos. Se o PaÃs conseguir a classificação por equipes, as chances de Gustavo estar em Paris-2024 aumentam, até porque competir com Marcus, o maior arqueiro brasileiro atualmente, não é das tarefas mais fáceis.
"Hoje estou muito mais preparado. Alcancei um nÃvel que não tinha. Estou entre os melhores do Brasil e batalho para subir ainda mais. Tenho boas chances. Dependendo das minhas colocações nas seletivas até 2024, posso sonhar", avalia Gustavo.
Gustavo ocupa o quarto lugar no ranking nacional do tiro com arco. Ele se mudou de Manaus para Maricá, no Rio de Janeiro, para treinar com os outros atletas da seleção brasileira. O arqueiro mora na sede da Confederação Brasileira de Tiro com Arco (CBTARCO) e tem apoio financeiro da FAS, que se inspirou na australiana Cathy Freeman, ouro nos Jogos de Sydney, em 2000, para criar o projeto Arquearia IndÃgena. Seu primeiro - e principal - desafio em 2022 é o Mundial da Coreia do Sul, em Gwangju. A competição começa em maio e ele já conseguiu vaga. Será a primeira vez que estará em uma Copa do Mundo da modalidade.
ARQUEARIA INDÃGENA
VirgÃlio Viana, superintendente geral da FAS, foi o idealizador do projeto que capta jovens indÃgenas e os desenvolvem como atletas. Ele diz que a iniciativa é fruto "de uma inquietude diante dos desafios relacionados ao suicÃdio de jovens indÃgenas e da desesperança desses jovens em função das perspectivas de vida que eles têm".
Segundo ele, a ideia nasceu com o objetivo de criar figuras de heróis indÃgenas, atletas vencedores capazes de enfrentar e eventualmente vencer os não-indÃgenas. "Conseguimos sim criar heróis indÃgenas e contribuir de forma modesta para esse desafio que é o problema da desesperança de jovens indÃgenas, que muitas vezes deságuam em alcoolismo, dependência de drogas e suicÃdio", comenta.
Gustavo teve de aprender a lidar com o arco olÃmpico, muito diferente em relação ao nativo. A transição é complexa. O equipamento profissional chega a pesar cinco quilos, cerca de quatro a mais que o material nativo, produzido com vara feita a partir da madeira extraÃda da bacabeira e a corda feita com tucum. "Existe uma diferença notável. O arco olÃmpico é muito mais tecnológico, mais profissional e muito mais pesado", constata o arqueiro.
FORTE FISICAMENTE, MAS NÃO MENTALMENTE
A vantagem dele, como de outros indÃgenas, é a força e a capacidade de suportar treinamentos exaustivos. "O Gustavo tem muita intensidade. Ele e outros indÃgenas têm uma vida muito mais ativa, pela ligação com a natureza. Eles têm uma habilidade motora incrÃvel e uma resistência muito grande", elucida AnÃbal Forte, técnico do atleta desde o começo de sua trajetória. "Tecnicamente e fisicamente ele está no nÃvel de qualquer atleta mundial", elogia.
Mas o que falta para Gustavo realizar o sonho olÃmpico? Segundo AnÃbal, tornar-se um atleta forte mentalmente, atributo visto em campeões de outros paÃses, especialmente os sul-coreanos e americanos. "Ele tem que estar exposto a uma série de situações estressantes para evoluir", acredita. "Infelizmente, no Brasil, a questão psicológica não é levada tanto a sério pelos atletas e confederações".
Fonte: Estadão Conteúdo