17/05/2020 08h10
Sem futebol, árbitros recorrem a auxílio emergencial do governo federal
Longe do apito, dos cartões e das partidas de futebol, o árbitro potiguar Diêgo Leonardo Santana, de 29 anos, tem uma preocupação bem delicada desde que a pandemia do novo coronavÃrus paralisou o calendário de competições. Assim como ele, muitos outros árbitros que dependem exclusivamente da remuneração pelo trabalho em partidas profissionais deixaram de ganhar dinheiro e precisaram recorrer ao auxÃlio emergencial de R$ 600 do governo federal para poder bancar as próprias despesas.
A profissão de árbitro de futebol não é regulamentada no PaÃs, mas muitos brasileiros dependem só desse trabalho para sobreviver. Segundo a Associação Nacional dos Ãrbitros de Futebol (Anaf), existem no paÃs cerca de 10 mil habilitados para apitar. A própria Anaf, federações estaduais e sindicatos de árbitros consultados pela reportagem estimam que pelo menos 5 mil árbitros não exerçam regularmente outra atividade remunerada fora do futebol.
No Campeonato Potiguar, onde Diêgo Santana atua, o árbitro costuma receber cerca de R$ 1,3 mil por jogo. A remuneração é variável de acordo com a competição e pode chegar até mesmo a mais de R$ 4 mil em partidas do Campeonato Brasileiro. "Só 15 árbitros do Brasil conseguem receber uma média de R$ 25 mil por mês. Já uns 60% do total ganha até R$ 2 mil por jogo apitado", disse o presidente da Anaf, Salmo Valentim.
No caso de Diêgo Santana, o auxÃlio de R$ 600 recebido do governo amenizou ainda o problema de não conseguir alunos para as aulas como personal trainer durante a pandemia. "Eu consegui remanejar algumas contas. Tenho um filho de 3 anos e negociei a mensalidade da escola. Estava quitando as prestações de uma moto, mas tive de congelar o pagamento", contou.
Ãrbitro do quadro da CBF, o pernambucano Gleydson Leite, de 43 anos, foi outro a ter recorrido ao auxÃlio do governo. Ele chegou até apitar uma partida com os portões fechados pouco antes da paralisação pela pandemia, mas não ficou à vontade. "Pela primeira vez em 18 anos de carreira eu entrei em campo e não tinha ninguém para me xingar. O futebol faz muita falta, porque eu gosto de estar em campo. A parte financeira ficou complicada com essa pandemia", afirmou.
Outro pernambucano, Tiago Nascimento, de 38, passou dificuldades antes de conseguir receber o auxÃlio do governo federal. "Minha reserva financeira acabou logo, porque eu vivo de arbitragem e não tenho emprego formal. Eu contei a ajuda de alguns familiares", contou. No ano passado ele atuou em mais de 20 jogos, principalmente nas Séries C e D do Brasileiro.
A ausência de jogos levou várias entidades ligadas ao futebol a organizarem doações na pandemia. A CBF repassou R$ 1,8 milhões para a Anaf distribuir entre mais de 4 mil árbitros federados. Em Estados como Amazonas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Alagoas as federações e sindicatos realizaram ajudas variadas, desde o adiantamento de taxas a até doações de cestas básicas.
O presidente da Comissão de Arbitragem da Federação Cearense de Futebol, Paulo SÃlvio, explicou que dos 130 árbitros do Estado, 86 estavam em situação delicada e sem fonte de renda. "Nós fizemos transferências com o valor mÃnimo de R$ 200. Ao todo vamos distribuir R$ 28 mil. O problema da pandemia é que os juÃzes não conseguem trabalhar nem mesmo em ligas amadoras e na várzea, que ajudam a completar o orçamento deles", afirmou.
Morador de Fortaleza, Wesley Pacheco, de 26 anos, foi outro árbitro a ter recorrido ao auxÃlio do governo federal. "Eu costumo apitar cinco jogos por semana, seja pelo Campeonato Cearense ou jogos amadores. Com a paralisação, perdi mais da metade da minha renda", contou.
PARTE FÃSICA - O dinheiro não é o único problema dos árbitros com a paralisação pela pandemia. A falta de prática e a necessidade de manter a forma fÃsica causam preocupação. Por isso, as federações e a CBF têm produzido um guia de exercÃcios para ser feitos em casa. Outra parte do conteúdo se trata de vÃdeos e exercÃcios práticos, em que os árbitros precisam analisar e tomar decisões sobre situações de jogo e a aplicação da regra.
"Quando o calendário voltar, vamos sentir a dificuldade como se fosse o primeiro jogo do ano. Fisicamente vamos ter de recuperar o ritmo", explicou o árbitro pernambucano Tiago Nascimento. Treinos funcionais e alongamentos têm sido a maior ferramenta para manter a atividade neste perÃodo.
Em Natal, o árbitro Carlos Alberto de Berto, de 33 anos, arrumou um jeito diferente de se manter na ativa. Porteiro de um condomÃnio, ele abriu mão do transporte público. "Vou ao trabalho de bicicleta, então já é um exercÃcio bom. A situação geral mudou muito para os árbitros, até mais do que em comparação aos jogadores. Nós estamos com dificuldades para treinar e para manter nossas contas em dia", explicou.
Fonte: Estadão Conteúdo