25/08/2016 07h20
2/3 das cidades mais violentas são do Nordeste
O Nordeste concentra as cidades mais violentas do PaÃs. Com o surgimento de novos polos econômicos nas últimas décadas, a região precisou lidar com uma onda de criminalidade para qual não estava preparada. O resultado é que, hoje, dos 150 municÃpios com as maiores taxas de homicÃdio por arma de fogo no Brasil, 107 ficam no Nordeste - dois a cada três. No ranking de capitais, as seis primeiras colocadas também são da região.
Os dados compõem o Mapa da Violência 2016 - HomicÃdios por Armas de Fogo no Brasil, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), sob coordenação do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz. Eles mostram que, apesar de o crescimento das mortes por arma de fogo ter desacelerado na última década no PaÃs, as realidades locais e regionais não seguem um padrão.
Enquanto Rio e São Paulo, por exemplo, conseguiram reduzir os Ãndices de assassinatos após investimentos em segurança, o Nordeste dobrou sua taxa de homicÃdio de 16,2 para 32,8 entre 2004 e 2014, puxando, ano a ano, os resultados do Brasil para cima. O Ãndice é bem superior ao da segunda colocada, a Região Centro-Oeste, que tem taxa de 26 mortes por 100 mil e registrou aumento de 39,5% no perÃodo. Já o Sudeste foi o único a recuar nessa década, 41,4%, e tem 14 homicÃdios por arma de fogo para cada 100 mil. No PaÃs, a média é de 21,2 homicÃdios por 100 mil habitantes.
Em 2014, o Ãndice médio do Nordeste foi liderado por Alagoas (56,1), Ceará (42,9), Sergipe (41,2) e Rio Grande do Norte (38,9). "Na virada do século, todos eram Estados que apresentavam bons Ãndices", afirma Jacobo Waiselfisz. "Locais que antes tinham altos Ãndices, como São Paulo, Rio e Pernambuco, passaram a receber recursos, e as taxas caÃram."
Guerra
No Brasil, dois municÃpios têm taxa superior a 100 homicÃdios por arma de fogo para cada 100 mil - número equivalente ao de zonas de guerra. São eles: Mata de São João (102,9), na Bahia, e Murici (100,7), em Alagoas, ambos em regiões metropolitanas do Nordeste. Para o cálculo, foram consideradas as cidades com mais de 10 mil habitantes, onde aconteceram 98% dos assassinatos por arma no PaÃs, no perÃodo de 2012 a 2014.
Das 150 cidades mais violentas, apenas 43 não ficam na região. O Distrito Federal e outros oito Estados não têm nenhum municÃpio na lista, incluindo São Paulo, Santa Catarina e Acre. Do Nordeste, apenas o Piauà não aparece. O estudo usa dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus).
Segundo Jacobo Waiselfisz, houve uma interiorização dos crimes no Brasil, antes concentrados em grandes capitais. "Surgiram polos industriais, que são atrativos de população e de violência", diz o sociólogo. Para ele, a "pandemia de violência" não foi acompanhada por incremento no aparato de segurança desses locais.
Já o ranking das capitais, liderado por Fortaleza, no Ceará, tem como base as taxas de 2014. Lá, foram 81,5 homicÃdios por arma de fogo por 100 mil habitantes. Na sequência, aparecem Maceió (73,7), São LuÃs (67,1), João Pessoa (60,2), Natal (53) e Aracaju (50,5). Só então, em sétimo lugar, vem Goiânia (48,5), no Centro-Oeste.
Carandiru
De acordo com o levantamento, as armas de fogo mataram 123 pessoas por dia em 2014. Mais do que no Massacre do Carandiru, quando 111 presos foram mortos em São Paulo, em 1992.
Para o sociólogo, apesar de a taxa de homicÃdio estar praticamente estável desde 2003, após uma polÃtica de controle de armas, com avanço de 0,3% ao ano, a quantidade de casos ainda preocupa. "A febre persiste. O indivÃduo (Brasil) não morreu, mas continua na UTI."
'Aqui todo mundo conhece alguém que já foi assassinado'
A cerca de 60 quilômetros de distância de Salvador, capital da Bahia, e dona de um dos litorais mais bonitos do Brasil, Mata de São João sobrevive da indústria do turismo. Segundo moradores, de tão pacÃfico o local chegou a ser conhecido como "a cidade dos aposentados". Nos últimos anos, porém, uma escalada de violência tem atingido o municÃpio. "Aqui todo mundo conhece alguém que foi assassinado", diz o jardineiro Gilton Santos, de 58 anos.
Em 1.º lugar no ranking das mais violentas do PaÃs, a cidade tem 102,9 homicÃdios por arma de fogo para cada 100 mil, segundo o Mapa da Violência 2016. Só em 2014, foram 45 casos. Isso para uma população que não passa de 45 mil pessoas.
"Agora é morte atrás de morte. Só neste ano Foi o 'Pitbull', o 'Geo', o 'Guel', o 'Fábio'. Tudo assassinado", conta o motorista Antônio Carlos Cardoso, de 48 anos, "nascido e criado" em Mata de São João. "Conhecido meu, são mais de dez."
Os moradores afirmam que a maioria das ocorrências está relacionada ao tráfico de drogas e as vÃtimas são, geralmente, jovens entre 15 e 25 anos. "Começou de uns cinco anos para cá. Antes a gente não via isso de jeito nenhum", diz Cardoso.
A Secretaria da Segurança Pública da Bahia questiona o ranking e diz que investe nas polÃcias. Segundo a pasta, a cidade tem predomÃnio de vegetação fechada e, por isso, serve "como ponto de "desova" de corpos, elevando os Ãndices registrados". Também diz que os dados da secretaria apontam redução nos últimos anos.
Fonte: Estadão Conteúdo