29/03/2017 08h36
'A sociedade tem de apoiar a mulher na amamentação', diz epidemiologista
O professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Cesar Victora, de 65 anos, está entre os sete cientistas que receberam a mais importante premiação cientÃfica do Canadá, o Prêmio Gairdner. Ganhadores desse tÃtulo são considerados como potenciais candidatos à indicação para o Prêmio Nobel. O tÃtulo foi concedido em reconhecimento ao conjunto de estudos sobre amamentação e nutrição materno-infantil. O epidemiologista brasileiro liderou uma pesquisa, iniciada nos anos 1980, considerada um divisor de águas na área de alimentação infantil.
Ao iniciar o estudo sobre amamentação exclusiva, o senhor imaginava obter esse resultado?
Não, foi uma surpresa. Todos sabiam da importância do aleitamento, mas até então ninguém tinha se dado conta de que a oferta de água e dos chás fosse prejudicial. Pelo contrário, acreditava-se que só leite materno não supriria toda a necessidade de lÃquidos. Vimos que o risco aumentava de forma expressiva a cada "chuquinha" ofertada.
O resultado foi uniforme entre todas as classes sociais?
Não. Avaliamos todas as mortes por diarreia ocorridas em Pelotas e Porto Alegre durante um perÃodo. Ao todo, foram 170, a maioria em população pobre, moradora de favelas. Mas a recomendação foi para a população em geral. O efeito é tão importante que mesmo paÃses ricos passaram a recomendar essa estratégia, pois a oferta de lÃquidos diminui a produção de leite e a amamentação fica mais curta.
A amamentação brasileira já está em nÃveis adequados?
Os números que dispomos são antigos, de 2007. Mas sabemos que mais ou menos metade das crianças brasileiras tem aleitamento exclusivo até os seis meses. É o tal copo meio cheio, meio vazio. Quando comecei a estudar o assunto, nos anos 80, essa taxa era zero. Estamos na direção certa.
Está havendo demora em se elevar esses indicadores?
Sim. Mas essas coisas são complicadas de se aumentar. A sociedade tem de apoiar a mulher na amamentação. Em uma série publicada na revista Lancet sobre amamentação usamos o Brasil como exemplo positivo. O PaÃs investiu muito em amamentação. A licença-maternidade paga é grande e há uma série de polÃticas de proteção da amamentação, como a rede de banco de leite.
As taxas de cesárea no Brasil continuam altas. Isso pode afetar a amamentação?
É importante que a amamentação comece na primeira hora após o nascimento, e a cesárea atrapalha o processo. Não é impossÃvel colocar o bebê no seio da mãe durante a cesárea, mas é difÃcil.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo