29/03/2021 13h00
Apesar da pandemia, 1.284 famílias de SP perdem bolsa-aluguel da Prefeitura
Cerca de mil famÃlias da zona norte de São Paulo devem perder, até o mês que vem, o auxÃlio-aluguel que vinham recebendo da Prefeitura desde que foram alvo de uma ação de despejo, em 2019. Eles tentam prorrogar o pagamento do benefÃcio, mas a gestão Bruno Covas (PSDB) vem sinalizando que não atenderá o pleito. Sem poder complementar a renda com bicos, como serviços de domésticas, garçons e pedreiros, em decorrência da pandemia, muitas das famÃlias relatam desespero e se veem na iminência de ir morar nas ruas. Entre os planos, está mandar filhos para serem alimentados por parentes em outras regiões do PaÃs.
Na última quinta-feira, 25, integrantes da Defensoria Pública do Estado discutiram que atitude tomar diante da possibilidade de o benefÃcio de fato deixar de ser pago. Uma ação civil deve ser ajuizada para tratar disso nos próximos dias.
As famÃlias ocupavam, desde os anos 1990, uma área à s margens do Córrego do Bispo, na zona norte da cidade, nas franjas do Parque Estadual da Cantareira, que era tida pelo Ministério Público Estadual como uma área de risco. Em 2019, com as obras do Trecho Norte do Rodoanel ao lado da área, a Prefeitura executou a remoção das famÃlias, mediante acordo costurado pela Defensoria Pública do Estado que garantiu pagamento de uma bolsa aluguel de R$ 400 por 12 meses, prorrogáveis por mais 12 meses. Parte das famÃlias já perdeu o benefÃcio, mas a maioria, segundo as lideranças comunitárias do bairro, o perderá entre abril e maio.
"Uma parte das pessoas foi para outras ocupações, e assim não paga aluguel. Mas quem tinha emprego usava o auxÃlio para complementar a renda, e conseguia alugar casa. Você sabe que, com R$ 400, não dá para alugar nem um quarto de cortiço na cidade", disse a lÃder comunitária Cremildes Jesus da Silva, de 56 anos.
"Essas pessoas não estão conseguindo mais bicos por causa da pandemia. Não tem bico de garçom, não tem bico na limpeza de bares, não tem de pedreiro, porque está quase tudo parado. Eles batem aqui na porta pedindo ajuda, mas só dá para encaminhar para o CRAS (os abrigos para moradores de rua do Centro de Referência de Assistência Social). Mas no CRAS tem de tudo, né? O traficante, o usuário. É muito difÃcil", afirma.
A auxiliar de limpeza Sueli Alves do Nascimento viveu por 19 anos nas margens do Córrego do Bispo. Ela trabalha como auxiliar de limpeza em uma fábrica. Todo o dinheiro que recebeu no perÃodo, incluindo férias e décimo terceiro, se transformou em paredes e bens para o barraco que terminou derrubado há dois anos. "Não fui parar na rua porque a moça da casa que aluguei me ajudou e deixou eu entrar sem ter que pagar três meses adiantado, como todo mundo estava pedindo", conta. Com salário de R$ 1.090, uma filha de 20 anos recém-desempregada pela pandemia e dois filhos (de 15 e 6 anos), os R$ 400 da Prefeitura eram o complemento para não deixar atrasado aluguel, água, luz e gás e comprar comida. "Agora, prefiro ainda não pensar no que vou fazer", disse ela. "Mas só com meu salário não pago as contas e compro comida para mim e meus filhos. Não dá", conta.
As famÃlias tentam prorrogar o pagamento do auxÃlio por mais 12 meses, ou até que a pandemia termine, para tentar evitar que algumas delas sigam para a rua.
A defensora pública Taissa Pinheiro, que acompanha o caso, disse que a Prefeitura já tem diagnóstico de que as 1.284 famÃlias que viviam no Córrego do Bispo estão em vulnerabilidade social. Por isso, afirma discordar da avaliação da equipe de Bruno Covas de que a bolsa aluguel seria temporária. "A vulnerabilidade ainda está presente", disse a promotora. "No ano passado, foi possÃvel fazer acordo administrativo para a prorrogação do pagamento", disse a defensora. Neste ano, como a Prefeitura se mostrou intransigente, a saÃda é uma ação judicial, que está em elaboração.
A gestão Covas ressalta que o despejo original das famÃlias, que deu origem ao benefÃcio, foi requisitado pelo Ministério Público. "Embora a área não seja pública, para cumprimento da decisão judicial, o MunicÃpio iniciou um plano de trabalho intersecretarial (Subprefeitura, Habitação, Assistência Social e Defesa Civil), para identificação e esclarecimento à s famÃlias sobre o serviço da rede de acolhimento, o cadastro nos programas de habitação e a importância da desocupação voluntária da área já que a mesma apresentava risco", disse a Prefeitura.
"Entendemos", segue a nota, "que não há amparo legal para a continuidade da concessão de atendimento habitacional provisório para as famÃlias da Encosta do Córrego do Bispo em vulnerabilidade social".
Fonte: Estadão Conteúdo