09/01/2018 08h00
Armas do crime vêm de Paraguai e EUA e rota é pela Tríplice Fronteira, diz PF
A maior parte das pistolas e revólveres que vão parar nas mãos de facções criminosas, principalmente do Sudeste do Brasil, vem do Paraguai. Os rifles e fuzis, por sua vez, têm origem nos Estados Unidos. Isso é o que mostra o rastreamento de 9.879 armas apreendidas pela PolÃcia Federal. BolÃvia, Argentina e Uruguai vêm em seguida na lista dos principais fornecedores. O tráfico de armamento ocorre a pedido do crime e sai sobretudo da TrÃplice Fronteira - 99% das unidades entram no PaÃs por fronteira terrestre.
O rastreamento começou a ser feito em 2014 com a criação de um centro especÃfico para esse trabalho e atingiu, no último biênio, o recorde de unidades monitoradas. A maior parte das armas foi rastreada a partir de apreensões na cidade do Rio.
Após a apreensão, a PF instaura uma investigação, que faz o caminho contrário até chegar às lojas em que as armas apreendidas no Brasil foram compradas. O relatório, obtido com exclusividade pelo jornal O Estado de S. Paulo, é assinado pelo delegado Luiz Flávio Zampronha, chefe da divisão de Repressão a Crimes contra o Patrimônio e ao Tráfico de Armas. "A PF passou a realizar um trabalho de busca de informações e parcerias a respeito de apreensões de armas com os Estados. Antes rastreávamos apenas as armas que a PF apreendia. Agora buscamos rastrear todas e vamos atrás da origem delas", explica.
O método, na opinião dos investigadores, é mais efetivo do que só controlar fronteiras, uma vez que fica possÃvel punir comprador e fornecedor. O próximo passo, de acordo com o diagnóstico, é integrar a atuação dos paÃses para que vizinhos, como o Paraguai, possam punir fornecedores.
Origem
De acordo com o relatório da PF, as principais rotas terrestres começam "em lojas nas cidades fronteiriças do Paraguai, passando pelo Paraná ou por Mato Grosso do Sul e depois são distribuÃdas em São Paulo e Rio de Janeiro".
Nesses Estados, diz a PF, os grupos criminosos usam as armas "para a proteção de áreas de tráfico de drogas, como no caso do Rio, ou gerenciam a distribuição ilÃcita, como a venda, aluguel ou empréstimo para outras facções para a prática de roubo a banco, cargas e valores, bem como resgate de presos". Os fuzis americanos normalmente são usados em ações de assalto. Três agências do banco Santander, por exemplo, foram alvo de criminosos no Estado do Rio entre as madrugadas de sábado, 6, e segunda-feira, 8. Em dois dos casos, os bandidos usaram armamento pesado.
Segundo a PF, além da TrÃplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, nas cidades de Foz do Iguaçu (PR), Ciudad Del Este (PAR) e Puerto Iguazú (ARG), as outras principais vias de entrada são Ponta-Porã (MS) com Pedro Juan Caballero (PAR), GuaÃra (PR) com Salto del GuaÃra (PAR); Corumbá (MS) com Porto Suarez (BO) e Santana do Livramento (RS) com Rivera (URU). A PF ainda cita a fronteira entre Brasil e BolÃvia, em Rondônia, a fronteira com a Colômbia, no norte do Amazonas e a fronteira com o Suriname.
A PF observou ainda uma rota que utiliza também pequenos aviões vindos da BolÃvia e do Paraguai, que transportam drogas e armas com destino ao interior de São Paulo e de Minas.
Atuação integrada
Responsável pelo diagnóstico sobre o tráfico de armas no Brasil, o delegado Luiz Flávio Zampronha defende, além da melhoria da fiscalização nas fronteiras, uma atuação integrada entre os paÃses do Mercosul no combate a esse crime. Isso para que sejam punidos não só os compradores, mas também os fornecedores de armamentos.
"Não é suficiente o trabalho na fronteira. A investigação tem de envolver as duas pontas, a vendedora e a compradora. Por isso a importância de criar e aprofundar canais de cooperação entre os paÃses", explica. Para Zampronha, esse trabalho conjunto já está avançado em relação a paÃses da União Europeia e aos Estados Unidos. Nesses casos, assim que a PF rastreia uma arma apreendida dessas localidades, o paÃs é acionado para buscar o fornecedor.
Para expandir essa cooperação e melhorar o combate ao tráfico de armas originárias de paÃses vizinhos como Paraguai, BolÃvia e Uruguai, o delegado aponta oito sugestões para paÃses do Mercosul. Entre elas a estruturação de um sistema informatizado de controle de armas nesses paÃses para responder aos pedidos de rastreamento, a instauração de ofÃcio para apurar as circunstâncias da saÃda da armas dos territórios e aumento do controle sobre armas importadas e revendidas.
Controle
Zampronha também aponta a necessidade de controle dos estabelecimentos comerciais de armas de fogo em regiões de fronteira e a troca de informações sobre furtos e roubos de armas de arsenais públicos. Por fim, o relatório vê necessidade de diminuição nos limites de importação de pistolas, fuzis e munições e pede norma que limite o acesso e venda à população dessas armas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo