11/08/2016 18h36
Cientistas identificam proteínas do vírus da zika que causam microcefalia
Duas proteÃnas do vÃrus da zika são responsáveis pela microcefalia, de acordo com um estudo liderado por cientistas da Universidade do Sul da Califórnia (USC), nos Estados Unidos. O vÃrus é formado por 10 proteÃnas, mas apenas duas delas estão envolvidas nas alterações da regulação celular que desencadeia a má-formação, segundo os autores da pesquisa publicada nesta quinta-feira, 11, na revista cientÃfica Cell Stem Cell.
Estudos anteriores já haviam provado que o vÃrus da zika é responsável pela microcefalia e explicado como o vÃrus infecta as células-tronco do cérebro, induzindo-as à morte celular e impedindo o desenvolvimento normal do cérebro. Para isso, foram utilizados experimentos em animais e em organoides - popularmente conhecidos como minicérebros - que simulam as estruturas cerebrais humanas em laboratório.
Mas o novo estudo, segundo os autores, é o primeiro a analisar o vÃrus em nÃvel molecular e a investigar como ele causa a microcefalia a partir de linhagens de células-tronco neurais de fetos humanos.
Os cientistas infectaram essas células-tronco dos cérebros dos fetos, em seu segundo trimestre de desenvolvimento, com três diferentes linhagens do vÃrus da zika. O passo seguinte consistiu em analisar o impacto da infecção de acordo com a presença de cada uma das 10 proteÃnas que são codificadas pelo RNA do vÃrus da zika.
Eles descobriram que duas proteÃnas, chamadas NS4A e NS4B, têm duas funções especÃficas: desorientar o mecanismo de sinalização das células do cérebro do feto, tornando-as deficientes e mobilizar as forças dessas células para acelerar a proliferação do vÃrus.
"Como agora nós conhecemos a rota molecular, demos um grande passo para descobrir quais são as melhores terapias contra a microcefalia induzida pelo zika. Dentro de alguns anos, essas terapias poderão ter como alvo as proteÃnas NS4A e NS4B", disse um dos autores do estudo, Jae Jung, da Escola de Medicina da USC.
As duas proteÃnas desorientam completamente uma rota de sinalização das células que é central para proteger o desenvolvimento das células do cérebro e para regular seu mecanismo de autofagia - um processo que funciona como uma espécie de "usina de reciclagem" celular, com a função de digerir os componentes celulares danificados. Normalmente a autofagia também ajuda a destruir toxinas e organismos invasores, mas quando as células estão infectadas com vÃrus como o zika, o mecanismo é sequestrado para ajudar o vÃrus a se proliferar.
"O zika ama a autofagia e precisa dela. O zika aumenta sua atividade nessa usina de reciclagem de forma que pode usar a energia e os nutrientes ali presentes para se replicar. É possÃvel que o zika utilize a maior parte da energia das as células-tronco neurais, deixando-as com déficits metabólicos. Com isso, as chances dessas células se diferenciarem e se tornarem neurônios maduros é muito mais baixa", explicou Jung.
Segundo ele, em sÃntese, as proteÃnas NS4A e NS4B tolhem o desenvolvimento do cérebro e estimulam a autofagia para que o vÃrus possa se alastrar. Segundo o estudo, quando as duas proteÃnas sequestram as células-tronco neurais dos fetos, o crescimento delas é reduzido em 65%. Além disso, a diferenciação de células-tronco neurais em neurônios maduros e outras células cerebrais é reduzida em 51%.
Fonte: Estadão Conteúdo