11/05/2016 09h57
Cientistas mapeiam efeitos do zika em cérebros em formação
Pesquisadores mapearam, pela primeira vez, os efeitos do vÃrus zika isolado no Brasil em neurosferas humanas, estruturas celulares que reproduzem o cérebro em formação. O trabalho permitiu identificar mais de 500 genes e proteÃnas alterados na infecção pelo vÃrus.
"É uma descoberta importante porque permite que pesquisadores do mundo inteiro entendam com mais profundidade como o zika age e possam encontrar formas de bloqueá-lo. O vÃrus pode matar a célula de diferentes formas. Mas agora a gente sabe, como num script, o que ele está fazendo. A pesquisa de quem estuda drogas que inibem infecção e replicação viral, se já se sabe qual é o script do vÃrus, fica muito mais fácil", disse a neurocientista PatrÃcia Garcês, do Laboratório de Neuroplasticidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto DOr de Pesquisa.
O estudo, que reuniu cientistas da Universidade de Campinas, Instituto Evandro Chagas, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Instituto de Biologia da UFRJ, foi publicado pelo jornal cientÃfico PeerJ, em sistema de preprint (antes da revisão por colegas).
Os pesquisadores identificaram que o vÃrus age de diferentes formas. Ele interrompe o ciclo celular, impedindo as células de se dividir e de dar origem aos neurônios. Provoca danos no DNA da célula, que acaba replicando o próprio vÃrus no organismo. Por fim, o vÃrus leva as células à morte.
"A célula tem genes e proteÃnas para dar origem aos neurônios. Mas, como esses genes e proteÃnas estão desregulados pela ação do zika, isso acaba não acontecendo. O vÃrus manipula a célula a favor dele e utiliza toda a maquinaria celular para se autorreplicar. Ao perceber esses problemas, a célula inicia um processo de autodestruição", disse ela.
As neuroesferas foram cultivadas com a presença dos vÃrus. Ao fim de 12 dias, não havia células porque todas entraram no processo de autodestruição. "Acreditamos que esse seja o mecanismo que cause a microcefalia porque essas células são as mães do neurônio. Os bebês com microcefalia quase não têm neurônios", afirmou a pesquisadora.
Para identificar os genes e proteÃnas afetados pelo vÃrus, os pesquisadores combinaram duas técnicas sofisticadas: transcriptoma (sequenciamento do RNA, em que é possÃvel observar os genes) e proteômica (análise das proteÃnas expressadas na célula). Depois, os dados foram comparados com os de neuroesferas não infectadas pelo zika.
Genes que atuam na produção neuronal estavam sub-regulados. Já os genes relacionados ao reparo do DNA ou estavam suprarregulados (esses genes atuam além do que deveriam e acabam levando à morte celular). "Vimos muita proteÃna relacionada à replicação viral. Talvez seja a primeira coisa que o vÃrus faça na célula. Ele para tudo o que está acontecendo na célula e começa a replicar o genoma dele."
Conhecer a dinâmica da infecção permitirá aos pesquisadores testar drogas que impeçam a ação do vÃrus no organismo. A cloroquina, droga já usada para malária, se mostrou promissora. "A cloroquina consegue bloquear a infecção antes do vÃrus entrar na célula. Também tem ação antiviral depois que o vÃrus entrou na célula, pois bloqueia a replicação viral. Por enquanto só temos teste em células, é importante salientar isso. Há artigos cientÃficos, com testes em animais, que a cloroquina se mostrou tóxica. Precisamos ampliar os estudos", afirmou.
Fonte: Estadão Conteúdo