15/08/2020 09h50
Contato com pessoa contaminada é mais perigoso que ingerir alimentos
É mais provável ser contaminado pela covid-19 ao entrar em contato com uma pessoa doente do que ao ingerir um alimento que contenha traços do vÃrus, dizem especialistas. Após autoridades municipais chinesas terem afirmado que uma amostra de asa de frango brasileira testou positivo para o coronavÃrus, infectologistas questionam o caso pelas condições desfavoráveis de reprodução e sobrevivência do vÃrus e praticamente descartam a hipótese de infecção via alimento.
"No meio tempo em que você está engolindo a comida, o vÃrus teria que conseguir entrar em uma célula da garganta para te infectar. Teoricamente, isso é possÃvel se houver uma carga viral muito grande, mas é improvável. Além disso, o ácido do estômago neutraliza o vÃrus", explicou o infectologista Max Igor Lopes, do Centro de Infectologia do Hospital SÃrio Libanês. "O reservatório principal do vÃrus é a pessoa infectada. A infecção direta (ao ter contato com gotÃculas respiratórias de pessoas contaminadas) é mais perigosa que a indireta (por meio de objetos e alimentos)."
Coordenador do Centro de Contingência da Covid-19 no Estado de São Paulo, o médico nefrologista José Medina também destacou que é o corpo humano que garante a multiplicação do coronavÃrus. "Para o vÃrus sobreviver, precisa da engenharia de dentro da célula humana. O vÃrus se multiplica ali, não dentro da célula de qualquer outro animal", disse.
Na mesma linha, está o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) que afirma que, ao contrário de bactérias, que podem se desenvolver em alimentos, o coronavÃrus precisa de um hospedeiro vivo para se multiplicar.
Fora do organismo, a covid-19 é relativamente frágil, pois medidas de higiene básica, como lavar as mãos com sabão ou álcool, são eficientes para inativar o vÃrus. O infectologista consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia Marcelo Otsuka lembra que, por se tratar de um alimento industrializado, é difÃcil que o frango exportado estivesse contaminado. "A questão da presença do vÃrus é muito questionável, porque seria preciso que ele se mantivesse viável por 40 dias, considerando o perÃodo em que saiu do Brasil até chegar na China. O mais provável é que a presença do vÃrus tenha se dado pela manipulação do produto lá."
O que a China avalia não é a presença do vÃrus, explicou Lopes, mas sim o material genético do vÃrus. "Há uma diferença aÃ. É um rastro, significa que o vÃrus esteve lá. Pode inclusive ser o material genético de um vÃrus morto. Mesmo que estivesse vivo, não sei se haveria uma quantidade suficiente para causar uma infecção", disse.
Fonte: Estadão Conteúdo