13/11/2021 22h50
COP-26: 'Perdemos oportunidade de ouro na negociação climática', diz Paulo Artaxo
A Cúpula do Clima (COP-26), em Glasgow, terminou neste sábado, 13, com progressos em relação às metas de reduzir o desmatamento e a produção de gás metano, mas faltou avançar no financiamento para conter as emissões de gases de efeito estufa. A regulação do mercado de carbono - outro resultado da COP-26 - também pode significar poucos ganhos ambientais.
Essa é a avaliação de Paulo Artaxo, autor-lÃder de um dos capÃtulos do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC) e professor da Universidade de São Paulo (USP). Para o especialista, nações desenvolvidas bloquearam avanços que seriam importantes para estabilizar clima no planeta. "Acabamos perdendo mais uma oportunidade de ouro na negociação climática."
Artaxo lembra que paÃses desenvolvidos investem fortunas em combustÃveis fósseis a cada ano e só agora se fala em sair da dependência desse tipo de recurso. Mudanças de última hora no texto final do acordo da COP-26 reduziram ainda mais as ambições em relação aos combustÃveis fósseis. "Basicamente, está se continuando o mesmo sistema que nos levou à crise climática que temos hoje."
O acordo construÃdo na COP-26 é suficiente? Ou seja, atende à s expectativas criadas com o evento?
Em linhas gerais, tem duas medidas que foram muito positivas na COP: a primeira é o compromisso de zerar o desmatamento até 2030. Não tinha tido nenhuma resolução até o momento neste sentido, sendo que não há maneira mais rápida, fácil e barata para reduzir as emissões do que parar o desmatamento. Isso resulta em uma série de benefÃcios paralelos, principalmente para paÃses como o Brasil. O segundo ponto é o acordo para a redução de 30% na emissão de metano, que também tem potencial de gerar grande impacto.
E sobre o restante das discussões?
Há três pontos que foram destaques ao longo da COP-26, mas que acabaram não avançando tanto. O primeiro é a estruturação do mercado de carbono internacional, que, antes de tudo, deveria ser um mecanismo que reduz emissões. Como está estruturado hoje, não há ganho ambiental. Tem de haver uma redução nas emissões associada ao mercado de carbono.
O segundo ponto é a questão dos combustÃveis fósseis. É inacreditável que depois de 26 anos de negociações seja a primeira vez que se fale de sair da dependência dos combustÃveis fósseis na matriz energética dos paÃses. Pelo modelo atual, os Estados Unidos, por exemplo, podem continuar a investir em usinas de carvão nos Estados Unidos, mas têm restrições para investir em carbono fora do paÃs, o que não gera tantos efeitos.
Um terceiro ponto é a questão do financiamento. Há mais de 10 anos, houve um compromisso para financiar as medidas de mitigação de paÃses em desenvolvimento para conter as mudanças climáticas. Isso porque paÃses em desenvolvimento, como Paraguai, Gana e Nigéria, são os mais vulneráveis e têm de pagar as contas sozinhos. Mas os investimentos não foram suficientes. O que se vê é que os paÃses desenvolvidos simplesmente não estão dispostos a ajudar os paÃses em desenvolvimento a se adaptar à s mudanças climáticas e a reduzir essas emissões.
Os paÃses desenvolvidos, portanto, acabaram tendo papel central para a atenuação dos acordos?
Mais uma vez, os paÃses desenvolvidos acabaram bloqueando avanços que seriam muito importantes na luta para estabilização do clima no planeta. Eles vão continuar a investir em subsÃdios e combustÃveis fósseis, mantendo um nÃvel de atividade econômica que não é sustentável. Acabamos perdendo mais uma oportunidade de ouro na negociação climática.
Mesmo o financiamento de US$ 100 bilhões, por exemplo, é pouquÃssima coisa, é irrelevante. Os paÃses desenvolvidos investem US$ 500 bilhões só em subsÃdios para combustÃveis fósseis a cada ano. Basicamente, está se continuando o mesmo sistema que nos levou à crise climática que temos hoje. Não mudou nada. Ou o planeta como um todo, principalmente os paÃses desenvolvidos, decidem estabilizar o clima do nosso planeta, ou nós não temos saÃda para a crise climática.
Sobre o mercado de carbono, por que ele é importante e que perspectivas abre para o Brasil nos próximos anos?
O mercado de carbono pode vir a ser um instrumento se for acompanhado de uma redução nas emissões. O Brasil tem um potencial sequestro de carbono por florestas muito maior do que qualquer paÃs hoje, tem um mercado de biocombustÃveis importante. Então, o mercado tem um potencial muito grande para paÃses como o Brasil, mas tem de ser melhor regulamentado. É isso que se espera com o novo acordo. Sem segurança jurÃdica, ninguém vai investir.
Fonte: Estadão Conteúdo