31/08/2021 15h40
Cresce o número de assassinatos de indígenas na última década, mostra estudo
Os assassinatos de Ãndios aumentaram ao longo da última década, mesmo com o recuo geral de homicÃdios no Brasil. Segundo o Atlas da Violência 2021, o PaÃs registrou a morte de 2.074 indÃgenas entre 2009 e 2019 - resultado que fez a taxa de letalidade violenta praticada contra os grupos étnicos saltar 22% no perÃodo. Esta é a primeira vez que o estudo analisa esses dados de violência.
Ao todo, o Brasil notificou 186 assassinatos de Ãndios em 2019. Embora o pico constatado seja entre 2017 e 2018 (com 247 e 240 mortes, respectivamente), o número mais recente é 36,7% maior em comparação aos indicadores de 2009. Com isso, a taxa de homicÃdios saltou de 15 para 18,3 casos a cada 100 mil indÃgenas na última década.
O comportamento estatÃstico da violência contra esses grupos contrasta com a diminuição de 20% na taxa geral de homicÃdios do PaÃs. No perÃodo, o Ãndice caiu de 27,2 para 21,7 mortes por 100 mil. Isso fez com que os assassinatos de Ãndios, que antes ficava em 55% do valor, tenham se aproximado cada vez mais da taxa nacional no decorrer da série histórica.
Dados do IBGE apontam 896,9 mil Ãndios no Brasil. "Como se tratam de populações pequenas em relação a outras, elas são mais suscetÃveis a qualquer nÃvel de violência", afirma Frederico Barbosa, pesquisador do Ipea e um dos participantes do estudo. "A maior preocupação é o risco de etnocÃdio, ou seja, a morte daquela memória ou cultura."
Barbosa avalia que o recrudescimento da violência está relacionado ao "avanço de tensões" em territórios indÃgenas, promovidas tanto pelo poder público quanto pelo setor privado. O contexto, marcado pela disputa de terras, envolve desde a construção de novas hidrelétricas, avanço da agropecuária e até mesmo práticas ilegais, como garimpo e exploração de madeira.
"Há um movimento de desconstrução de territórios indÃgenas já demarcados e também de imposição de dificuldades para demarcar novos territórios. A discussão do marco temporal é a expressão desse tensionamento", afirma o pesquisador. "Na franja dessa questão, está a violência."
Em números absolutos, Amazonas, Roraima e Mato Grosso do Sul registraram o maior número de assassinatos de indÃgenas. Foram 49, 41 e 39 casos, respectivamente.
Para Barbosa, soluções passam por aprimorar polÃticas de gestão territorial, combater práticas ilÃcitas nesses territórios e melhorar a coordenação de ações entre a Funai e os setores de inteligência das polÃcias. "Também é preciso pensar na população indÃgena que se desloca para as cidades. Nesses casos, polÃticas voltadas para áreas mais vulneráveis, como regiões periféricas, ajudariam na proteção."
Funai muda de lado e passa a defender marco temporal
O Estadão mostrou que a Fundação Nacional do Ãndio (Funai) mudou de lado sobre o marco temporal. Quando apresentou o recurso, em 2017, a Funai pregava a demarcação da terra do povo Xokleng, em Santa Catarina. Hoje, sob o governo Jair Bolsonaro, já se manifestou a favor da tese defendida pelos produtores rurais.
O caso é considerado um dos mais importantes da história do Supremo Tribunal Federal no que diz respeito à s terras indÃgenas e, a partir desta terça-feira, 1, os ministros do Supremo vão se debruçar sobre o assunto, na tentativa de diminuir os conflitos. O critério do marco temporal prevê que só podem ser consideradas terras indÃgenas aquelas já ocupadas por eles no dia 5 de outubro de 1988, quando foi promulgada a Constituição.
Fonte: Estadão Conteúdo