15/02/2021 18h31
Cuidados para evitar covid-19 levaram à queda de outras doenças respiratórias
Quando os primeiros casos de covid-19 no PaÃs foram registrados no fim de fevereiro, coincidindo com o inÃcio da chamada "temporada de gripe", os médicos temeram pelo pior. Um novo vÃrus muito contagioso se somaria a todos os outros patógenos respiratórios que costumam circular nesta época do ano, atingindo sobretudo as crianças. Mas a realidade se revelou bem diferente. A ocorrência dessas outras doenças caiu em mais de 70%. As internações de casos pediátricos graves foram reduzidas em 80%.
Os hábitos de isolamento social, uso de máscara e higiene pessoal redobrada adotados por causa da pandemia foram os grandes responsáveis pela queda expressiva das outras doenças respiratórias no PaÃs, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, comprovando a eficácia das barreiras fÃsicas na disseminação de micróbios. Praticamente não tivemos "temporada de gripe". E as crianças foram as mais poupadas.
O número de ocorrências de sÃndromes respiratórias graves causadas pelo vÃrus sincicial respiratório (VSR), um dos mais comuns entre março e junho, caiu 76,4% entre janeiro e agosto deste ano quando comparado à média dos últimos três anos nos mesmos meses. Os casos de gripe também despencaram - uma redução de 62,2%. Os números são do sistema Infogripe, da Fiocruz.
"Todo o cenário estava armado para termos uma temporada especialmente grave de influenza este ano", afirma Marcelo Gomes, coordenador do Infogripe. "Já tÃnhamos registrado um número de casos de gripe acima da média em fevereiro, bem antes do perÃodo em que costuma começar a temporada, mais perto do inverno. Além disso, tÃnhamos tido uma temporada muito forte de influenza no Hemisfério Norte e, quando isso ocorre, a tendência é se repetir por aqui."
Em meados de março, no entanto, as medidas de isolamento social tiveram inÃcio, as escolas foram fechadas, e as campanhas para estimular a lavagem das mãos e o uso do álcool gel tomaram conta da mÃdia. Embora a máscara não tenha sido recomendada num primeiro momento, logo em seguida ela também foi adotada por parte da população.
"A partir daà o que vimos foi uma queda significativa e brutal dos casos graves de sÃndromes respiratórias", aponta Gomes. "As ações que tomamos para tentar diminuir a velocidade de disseminação da covid foram eficientes para os outros vÃrus respiratórios que têm a mesma dinâmica de transmissão."
Os dados do Infogripe mostram que o número de ocorrências graves de influenza de janeiro a agosto de 2019, por exemplo, foi de 6 mil, ante menos de 2 mil no mesmo perÃodo deste ano. Nos oito primeiros meses do ano, o número de casos de sÃndrome respiratória grave causada pelo vÃrus sincicial respiratório caiu de 5.765 em 2019 para 1.047 este ano. Segundo Gomes, a subnotificação é desprezÃvel, porque o painel só registra os casos muito graves, em que os pacientes precisam ser hospitalizados.
Margareth Dalcolmo, pneumologista da Fiocruz, cita que também colaborou para esta queda a alta cobertura que a vacinação contra influenza alcançou neste ano. Logo que o coronavÃrus chegou ao Brasil, as autoridades de saúde incentivaram a vacinação justamente como medida para evitar a ocorrência de várias doenças respiratórias ao mesmo tempo, o que poderia aumentar a procura por hospitalização, prejudicando ainda mais a oferta. De acordo com o DataSus, a cobertura superou os 90% da população alvo no PaÃs.
Mas se as medidas foram tão eficientes contra os outros vÃrus, por que, então, os casos de covid não foram controlados também? A principal explicação é que a capacidade de transmissão do Sars-Cov-2 é bem maior do que a dos outros vÃrus - e este é um dos motivos que o tornam potencialmente mais perigoso. Se o isolamento social - ainda que parcial em muitos Estados - não tivesse sido feito, a tragédia da covid-19 teria sido bem maior.
As crianças foram as mais poupadas
A queda mais significativa no número de casos de outras gripes ocorreu entre as crianças. Com todas as escolas do PaÃs fechadas, elas realmente ficaram mais isoladas durante a maior parte da epidemia. Além disso, diferentemente do que ocorre em outras doenças respiratórias, elas não são o alvo preferencial da covid-19. Os mais vulneráveis são os adultos e os idosos.
Um novo estudo do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (Idor) revelou que as internações por infecções respiratórias comuns em UTIs pediátricas tiveram uma queda de 80% em 2020 em comparação com os três anos anteriores.
"As UTIs pediátricas ficaram muito vazias", relata o pediatra José Colleti Jr, coordenador da UTIP do Hospital Assunção, em São Bernardo do Campo, que participou do estudo. "Muitas delas, inclusive, fecharam porque não tinham pacientes e acabaram sendo transformadas em UTIs de covid. Alguns intensivistas pediátricos fizeram cursos rápidos e foram transferidos para unidades de adultos."
O estudo foi feito em parceria com a Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva Pediátrica em 15 hospitais da Rede D'Or em Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Distrito Federal. A confirmação dos primeiros casos de covid no fim de fevereiro e começo de março, coincidindo com o inÃcio da temporada sazonal de doenças provocadas por vÃrus respiratórios, alarmou os médicos, sobretudo os pediatras, porque as crianças, normalmente, são mais vulneráveis aos patógenos respiratórios.
"Nesta época do ano, normalmente, as emergências pediátricas ficam lotadas, prontos socorros fecham por não terem condições de atender mais doentes, falta vaga em UTIs pediátricas", enumera Colleti Jr. "Quando o novo coronavÃrus surgiu, não sabÃamos como ele se comportaria em crianças. Ficamos com muito medo que se somasse à s doenças que já tÃnhamos normalmente provocando uma verdadeira tragédia. Mas aconteceu justamente o contrário."
"Não é que os vÃrus deixaram de existir, mas eles não circularam de forma tão intensa", afirma a pediatra PatrÃcia Barreto, presidente do Departamento de Doenças do Aparelho Respiratório da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj). Segundo PatrÃcia, uma lição importante a ser mantida depois da volta à s aulas, é que crianças com qualquer sintoma de doença respiratória, como febre e coriza, não devem ser mandadas para a escola como muitas vezes costumava ser feito.
Fonte: Estadão Conteúdo