03/09/2020 18h30
Detenta consegue na Justiça direito de cursar biblioteconomia na UFBA
Uma detenta que cumpre pena em regime fechado no Conjunto Penal Feminino de Salvador, na capital baiana, obteve na Justiça o direito de cursar o primeiro semestre da graduação em Biblioteconomia na Universidade Federal da Bahia (UFBA).
A decisão da juÃza Maria Angélica Carneiro, da 2ª Vara de Execuções Penais, atende a um pedido da Defensoria Pública do Estado e autoriza a participação nas aulas do próximo perÃodo, que serão oferecidas em regime remoto em razão da pandemia do novo coronavÃrus.
"O direito à educação é de natureza social, está previsto na Constituição, tem a ver com a dignidade da pessoa humana e com o exercÃcio da cidadania. Trata-se de um mecanismo importantÃssimo de ressocialização, um dos objetivos do sistema prisional, já que a prática da atividade acadêmica é uma forte aliada no processo de inclusão social, qualificação profissional e bem-estar do(a) reeducando(a)", escreveu a juÃza na sentença proferida na semana passada.
A detenta, que teve a identidade preservada, cumpriu pouco mais de um terço da pena de 25 anos de prisão. Desde que deu entrada no sistema penitenciário, passou a ser conhecida como uma das frequentadoras mais assÃduas da biblioteca, segundo a Defensoria da Bahia, e deve obter progressão da pena antes de 2024.
"Com uma história de vida marcada por abusos, ausência de direitos e vulnerabilidade social que a conduziram a práticas criminais, ela passou dentro do presÃdio a se dedicar aos estudos", informou o serviço de comunicação da Defensoria.
O histórico foi levado em conta na decisão da juÃza Maria Angélica, que destacou o desempenho da presa ao obter aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para cursar uma universidade federal.
"Em pleno cárcere, a reeducanda logrou êxito na aprovação de um dos processos vestibulares mais concorridos, garantindo sua matrÃcula em uma das melhores instituições de ensino superior do paÃs, algo que muitos jovens, em que pesem terem a seu favor todas as vantagens que a vida longe do cárcere lhes proporciona, não conseguem", apontou a magistrada.
A decisão, no entanto, garante a participação apenas no semestre complementar da UFBA, justamente porque as aulas serão ministradas online. Antes disso, a detenta, que foi aprovada no vestibular em 2018, teve todos os pedidos para frequentar as turmas presenciais negados.
O próximo passo, segundo a defensora Andrea Tourinho, que atua no Conjunto Penal Feminino de Salvador, é assegurar a continuidade da formação. Ela sustenta que a educação é um componente da ressocialização tão importante quanto o trabalho e que a reintegração das pessoas presas não deve ficar restrita aos limites do sistema prisional.
"A ressocialização é um direito adquirido. Portanto, a detenta não pode perder esse direito. Nós estamos falando de uma parte boa que a lei de execução penal prevê, que é a educação. A ressocialização não significa apenas trabalhar ou estudar intramuros", defende Andrea.
Fonte: Estadão Conteúdo