05/07/2017 09h00
Estudo revela segredo dos romanos para fabricar concreto mais durável
Um grupo de cientistas americanos estudou a quÃmica e a fÃsica microscópica de ancoradouros e quebra-mares do Império Romano e descobriu como essas construções se tornaram cada vez mais fortes ao longo de 2 mil anos, enquanto as estruturas marinhas modernas, feitas de concreto, entram em colapso depois de poucas década de exposição à s ondas.
O grupo liderado pela geóloga Marie Jackson, da Universidade de Utah (Estados Unidos) mostrou que o escritor romano PlÃnio, o Velho, estava certo quando escreveu em sua obra Naturalis Historia, no ano 79, que as estruturas dos portos romanos expostas à s constantes investidas das ondas, tornam-se "uma só massa de pedra, impregnável pela água marinha, que fica mais forte a cada dia".
Os pesquisadores utilizaram luz sÃncrotron - um tipo de raio-X produzido por um acelerador de partÃculas - para estudar em escala microscópica o "concreto" romano, que era feito com uma argamassa composta por cinzas vulcânicas, cal e água do mar, à qual eram agregados pedaços de rocha vulcânica. Os cientistas descobriram que o material filtra a água marinha, produzindo em seu interior o crescimento de minerais interligados que aumentam sua coesão ao longo do tempo.
Segundo Marie, o concreto de cimento Portland - principal material da construção civil na atualidade - também utiliza agregados de rochas, mas há uma diferença importante em relação ao material romano: as partÃculas de areia e cascalho empregadas no agregado são intencionalmente inertes, pois qualquer reação quÃmica poderia causar expansão e rachaduras no concreto.
"O princÃpio é o contrário do que é utilizado no concreto moderno, que tem base no cimento e que não pode sofrer reações quÃmicas. Os romanos criaram um concreto que parece rocha e fica mais robusto a partir de reações quÃmicas livres com a água do mar", explicou Marie.
A partir de análises feitas com a luz sÃncrotron, utilizando diferentes técnicas, como microdifração e microfluorescência, os cientistas descobriram que nos poros do interior das amostras de estruturas romanas havia formação de cristais de tobermorita de alumÃnio e de filipsita.
"Com a luz sÃncrotron, mapeamos as microestruturas do cimento utilizado pelos romanos. Identificamos diversos minerais e intrigantes sequências complexas de cristalização na escala de milésimos de milÃmetros", disse a pesquisadora.
Os cientistas concluÃram que a água do mar se infiltra nos poros das estruturas dos ancoradouros e quebra-mares romanos, reagindo com as cinzas vulcânicas, que se dissolvem. Os fluidos altamente alcalinos que resultam desse processo permitem o crescimento de novos minerais, em especial a tobermorita de alumÃnio e a filipsita.
Reforço quÃmico
Segundo Marie, a tobermorita de alumÃnio tem composição rica em sÃlica, como os cristais que se formam nas rochas vulcânicas. Esses cristais têm formatos achatados que reforçam o material. Essas placas microscópicas que crescem interligadas aumentam a resistência do "concreto" romano à s fraturas.
"É um sistema que funciona com o princÃpio contrário de tudo o que normalmente se quer de um concreto com base em cimento. Esse tipo de reação quÃmica, chamada de reação alcali-sÃlica, é atualmente uma das principais causas da destruição de estruturas de concreto de cimento Portland em todo o mundo", afirmou Marie.
O mesmo tipo de conglomerado foi utilizado pelos romanos não apenas em estruturas marÃtimas, mas em todo tipo de construção arquitetônica, como o Panteão e o Mercado de Trajano, erigidos em Roma nos séculos 1 e 2, respectivamente.
Receita perdida
Embora tenham descoberto o que torna as construções romanas tão duráveis, os cientistas dizem que é inviável utilizar esse tipo de material para substituir o cimento Portland, cuja fabricação produz enormes quantidades de dióxido de carbono. O problema é que os cientistas só conseguem sintetizar cristais minerais como a tobermorita de alumÃnio em pequenas quantidades, sob altÃssimas temperaturas.
"É muito difÃcil de fazer. E a receita dos romanos se perdeu completamente", disse Marie, que estudou profundamente os textos romanos em busca dos métodos precisos que os engenheiros da antiguidade usaram para misturar a argamassa marinha.
"Os romanos tiveram a sorte de poder trabalhar com aquele tipo de rocha. Eles provavelmente observaram que as cinzas vulcânicas faziam crescer esses cristais. Mas tal tipo de rocha não existe na maior parte do mundo, então os cristais teriam que ser sintetizados", explicou.
Os estudos, porém, continuam. A equipe liderada pela pesquisadora está pesquisando uma receita para substituir o processo romano a partir de materiais obtidos no oeste americano. Segundo ela, o "concreto" romano dificilmente terá condições de substituir o cimento Portland, mas poderia ser bastante útil em contextos especÃficos.
Fonte: Estadão Conteúdo