03/02/2018 07h40
Estudo sobre zika revela que genética é que torna bebê suscetível à microcefalia
Desde o inÃcio da epidemia de zika que assolou o Brasil em 2016, cientistas tentam encontrar uma explicação para o fato de que nem todas as gestantes infectadas pelo vÃrus têm bebês com microcefalia e outros problemas neurológicos. Agora, um novo estudo feito com bebês gêmeos finalmente trouxe uma resposta: um conjunto de alterações genéticas é responsável por aumentar a suscetibilidade de alguns bebês à s consequências neurológicas da infecção.
Segundo os autores da pesquisa, de 6% a 12% das gestantes infectadas pelo vÃrus da zika terão bebês com problemas neurológicos. O estudo, liderado pela geneticista Mayana Zatz, do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP), foi publicado ontem na revista Nature Communications.
Embora o estudo tenha confirmado a existência de um componente genético, a suscetibilidade aos impactos neurológicos do vÃrus não é explicada pela ação de um único gene, mas por diferenças que envolvem a expressão de 64 genes diferentes. A pesquisa também concluiu que a maior parte desses genes com expressão modificada tem envolvimento no crescimento e na morte celular e na diferenciação das células cerebrais durante o desenvolvimento do feto.
De acordo com Mayana, no futuro, a descoberta de um componente genético poderá ajudar a identificar pais com risco de terem filhos com os padrões genéticos associados a uma propensão à microcefalia, que poderiam ser priorizados em uma futura campanha de vacinação. "O fato de o bebê ter esses fatores de suscetibilidade genética não significa que ele terá microcefalia, a menos que seja infectado pelo vÃrus da zika. É possÃvel fazer um paralelo com a diabete: a pessoa pode ter uma propensão, mas só desenvolverá a doença se consumir muito açúcar, se tiver excesso de peso e assim por diante", diz Mayana.
A pesquisa foi feita com gêmeos, segundo Mayana, porque eles fornecem informações preciosas para responder se uma determinada condição tem causas ambientais ou genéticas. Durante a epidemia foram identificados casos de gêmeos discordantes - em que apenas um nasceu com microcefalia. Esse fato, explica a cientista, levou os pesquisadores a levantarem a hipótese - agora confirmada - de que a microcefalia decorrente da zika poderia ser consequência de predisposição genética.
"Os gêmeos são a amostra ideal para provar isso. Se estudássemos bebês com mães diferentes nunca saberÃamos se elas haviam sido expostas à s mesmas condições, se tinham cargas virais iguais, ou se teriam sido submetidas a infecções cruzadas de outros vÃrus. Ao estudar os gêmeos, temos crianças com a mesma carga viral, a mesma linhagem do vÃrus e assim por diante", afirma Mayana.
O estudo. Em 2016, foram examinados 91 bebês com zika congênita, sendo nove pares de gêmeos. Entre os gêmeos, dois eram idênticos e ambos haviam sido afetados. Os outros sete pares não tinham os mesmos componentes genéticos - em um par, os irmãos haviam sido afetados; os outros eram discordantes.
Os cientistas coletaram amostras de sangue de gêmeos discordantes, e essas células foram reprogramadas para gerar células-tronco pluripotentes, que podem dar origem a qualquer tipo de tecido. Assim, foi criada uma linhagem de células progenitoras neurais, que dão origem a células do cérebro e de outras partes do sistema nervoso central. Essas amostras foram infectadas com o vÃrus, para reproduzir em laboratório o impacto do zika na hora da formação do cérebro dos bebês.
Em algumas amostras o vÃrus se reproduziu mais do que em outras, causando problemas neurológicos. Em seguida, cientistas analisaram toda a sequência de genes dos bebês e não encontraram um gene que, isoladamente, poderia determinar a suscetibilidade. Por isso, passaram a estudar o RNA dos seis gêmeos, para verificar como os genes se expressam. Perceberam, então, diferenças em 64 genes nos bebês que haviam desenvolvido problemas neurológicos, confirmando a hipótese levantada inicialmente. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo