28/11/2019 14h40
Exposição à poluição pode gerar efeitos semelhantes aos do Alzheimer
Um estudo publicado em novembro deste ano e realizado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) com mais de 900 mulheres indicou que a exposição ao ar poluÃdo causa danos à memória devido a uma redução do tamanho de seus cérebros. A pesquisa reuniu um grupo de 998 mulheres entre 73 e 87 anos de idade e escaneou seus cérebros. A partir disso, as imagens foram comparadas com cérebros de pessoas com a doença de Alzheimer.
Em entrevista, Diana Younan, pesquisadora que conduziu o estudo, relata que os resultados indicaram uma "semelhança entre os cérebros de mulheres que viveram em ambientes com exposição maior a poluentes e cérebros de pessoas com a doença".
A partir disso, a conclusão do estudo foi que "a exposição à poluição gera efeitos no cérebro semelhantes ao da doença de Alzheimer, com redução da memória devido a um encolhimento da região do cérebro responsável por essa função".
Confira, abaixo, a entrevista com a pesquisadora
Como a pesquisa foi feita?
Nós usamos dados de 998 mulheres da Iniciativa pela Saúde Feminina que tinham entre 73 e 87 anos e havia dois registros do cérebro com cinco anos de diferença. As imagens dos cérebros foram pontuadas a partir da semelhança com os padrões da doença de Alzheimer usando uma ferramenta que havia sido "treinada" para aprender esses padrões a partir das imagens do cérebro de pessoas com Alzheimer. Isso significa que as imagens do cérebro de mulheres com pontuação alta eram mais semelhantes as imagens do cérebro de alguém com Alzheimer. Nós também reunimos informações sobre onde as 998 mulheres viveram durante o perÃodo do estudo, assim como informações do ambiente nesses locais para estimar a exposição a partÃculas de poluição.
Quais foram os principais achados?
Quando todas as informações foram reunidas, nós vimos uma associação entre exposição alta a partÃculas de poluição, mudanças no cérebro e problemas de memória. Mais precisamente, as partÃculas de poluição estavam associadas a mudanças fÃsicas nos cérebros das mulheres e essas mudanças estavam conectadas a um declÃnio na performance da memória, mesmo depois de levarmos em conta diferenças na idade, raça, região, renda, educação, situação empregatÃcia, hábitos de fumo, uso de álcool, atividade fÃsica e fatores de risco cardiovascular.
Os resultados surpreenderam os pesquisadores?
Não, eles não nos surpreenderam. Pesquisas anteriores já tinham sugerido que partÃculas de poluição aumentam o risco para a doença de Alzheimer e demências relacionadas, mas não entendÃamos como. O que nós não sabÃamos era se as partÃculas de poluição alteravam a estrutura do cérebro, o que então acelerava o declÃnio da memória e então eventualmente levava à doença de Alzheimer. Então, nós exploramos isso em nosso estudo. Nós descobrimos que partÃculas de poluição estavam associadas a um declÃnio maior na performance da memória e o "como" era por meio de alterações fÃsicas do cérebro. Entretanto, como esse é o primeiro estudo do gênero, combinando tanto dados longitudinais de performance da memória e a pontuação de risco para a doença de Alzheimer, nossos achados precisarão ser replicados.
Qual é a relação exata entre poluição e problemas na memória?
O que nossa pesquisa mostrou é que a poluição no ar pode estar alterando e diminuindo áreas do cérebro, o que leva a problemas de memória.
*Estagiário sob supervisão de Charlise Morais
Fonte: Estadão Conteúdo