02/12/2015 11h15
Famílias constroem 'puxadinho' no centro de São Paulo
A 650 metros da Prefeitura de São Paulo, no centro da capital, quem caminha na Avenida Rio Branco e olha para o topo de um edifÃcio de três andares, no número 53, avista paredes de tijolo e cimento expostos, ainda sem acabamento. O "puxadinho", com divisórias que separam o espaço em cinco cômodos, começou a ser construÃdo na cobertura do prédio por moradores de uma ocupação com 60 famÃlias há dois meses.
O terreno, onde funcionava o hotel Visconti, foi desapropriado pela Prefeitura, está em posse da gestão desde 2009 e foi ocupado por integrantes da Frente de Luta por Moradia (FLM) há quatro anos. A administração municipal informou que foi emitido um "comunicado solicitando a paralisação".
Embora ainda não tenha sido concluÃda a obra do "puxadinho", algumas famÃlias já ocuparam o local, que se divide em cinco cômodos equipados, incluindo banheiro. Moradores vizinhos, que pediram para não ser identificados, relatam que os ocupantes removeram as telhas do topo do prédio para erguer a estrutura.
A coordenadora da ocupação no número 53 da Rio Branco, Jomarina Abreu, da FLM, informou que o "puxadinho" começou a ser erguido há dois meses e que foi chamada "uma pessoa" para avaliar a construção. A reportagem pediu o contato da pessoa em questão, mas Jomarina afirmou que, "no momento", não tinha o contato.
"As famÃlias estão construindo à prestação. Se saÃrem de lá, terão prejuÃzo porque quem está bancando o material são as próprias famÃlias", disse a coordenadora.
Em nota, a Prefeitura informou que o prédio é da Secretaria de Cultura desde dezembro de 2009, data de recebimento do terreno. "Atualmente há um diálogo com a Secretaria de Habitação para que o local tenha uso compartilhado - cultural e habitacional. O projeto prevê a demolição do edifÃcio", explicou a gestão. O texto informou ainda que "representantes da pasta e do movimento estão dialogando para que a desocupação do local aconteça de forma pacÃfica".
"Não tenho nada contra pobre porque também sou, nem sou contra habitação popular, desde que seja organizada. Mas estão construindo do jeito que acham que está bom. Não sabemos se essa laje comporta", afirmou a moradora de um prédio próximo, que não quis ser identificada. Segundo ela, um vizinho do seu edifÃcio teria feito denúncias junto à Prefeitura. A gestão nega.
Análise técnica
Na avaliação de Cláudio Vidrih, doutor em Engenharia Civil e professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, a construção do "puxadinho" oferece "um grande risco de ruÃna nos andares de baixo". Ele estima que a carga do prédio esteja sendo ampliada em pelo menos 20 toneladas.
"Na hora que levarem mobiliário, geladeira, cama e máquina de levar vai chegar, tranquilamente, a 25 toneladas a mais do que o prédio já está suportando", afirmou o especialista.
Isso porque, segundo Vidrih, os moradores estão usando a laje de forro, onde antes estava o telhado, como chão, o que é considerado um "perigo" pelo engenheiro. "Quando você faz um prédio com mais de um pavimento, a última laje é a de forro. A cobertura é apenas para fechar. Não serve como estrutura para você andar em cima porque é mais barata e mais fina", explicou o professor. Para ele, os moradores estão "dando um tiro no pé".
O prognóstico de Miriana Marques, vice-presidente de atividades técnicas do Instituto de Engenharia, é semelhante. Segundo ela, para construir uma estrutura fora do planejado, é preciso estudo por um profissional habilitado. Caso seja possÃvel erguer um pavimento a mais, é necessário fazer o reforço na fundação, que pode ser, por exemplo, o alargamento de uma pilastra.
"Existe um risco para esse tipo de construção porque a gente não sabe quanto esse prédio aguenta. Se a fundação não aguentar, tem o risco de ruir. Ainda mais se o prédio já tiver trincas ou fissuras", disse Miriana. "O que eles estão fazendo é perigoso. Estão arriscando a própria vida."
Fonte: Estadão Conteúdo