03/04/2018 20h50
'Geoengenharia climática' pode causar desastre e pobres serão mais afetados
Em um artigo publicado nesta terça-feira, 3, na revista cientÃfica Nature, um grupo de 12 especialistas em mudanças climáticas que atuam em nações em desenvolvimento - incluindo o fÃsico brasileiro Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP) - faz um apelo inédito para que os cientistas de seus paÃses tomem a linha de frente dos estudos sobre geoengenharia solar.
Tema controverso entre os cientistas, a geoengenharia solar é um ramo da geoengenharia climática, que consiste em realizar intervenções em escala geológica para modificar o meio ambiente com o objetivo de reduzir impactos das mudanças climáticas globais.
Uma das principais propostas dos pesquisadores que defendem a geoengenharia solar envolve gerenciar a radiação do Sol que incide sobre a Terra por meio do lançamento, na parte superior da atmosfera, de partÃculas reflexivas que ajudariam a filtrar a energia do Sol, produzindo um efeito de "resfriamento" global.
As consequências desse tipo de intervenção, segundo os autores do artigo na Nature, ainda são incertas. Mas seus impactos - negativos ou positivos - afetariam com mais intensidade os paÃses em desenvolvimento.
"Os paÃses em desenvolvimento hoje estão excluÃdos da pesquisa em geoengenharia, que está sendo feita quase totalmente nos paÃses ricos. No entanto, os impactos de qualquer técnica dessas ainda envolvem muitas dúvidas - e a única certeza é os paÃses em desenvolvimento sofreriam mais intensamente com esses impactos", disse Artaxo ao Estado.
No artigo, os cientistas defendem que os paÃses em desenvolvimento são os que mais teriam a ganhar ou perder com essas técnicas e por isso deveriam ser os protagonistas no encaminhamento dessa agenda de pesquisas. "Precisamos acelerar as pesquisas acadêmicas na área de geoengenharia para podermos quantificar e amenizar cada um dos impactos negativos que essas técnicas poderiam ter em nossos paÃses", afirmou Artaxo.
As nações em desenvolvimento, segundo o fÃsico, não têm recursos tecnológicos para adaptação à s mudanças climáticas e por isso são muito mais vulneráveis a elas. "É possÃvel que os paÃses desenvolvidos comecem a implementar técnicas de geoengenharia dentro de alguns anos, sem que haja um sistema de governança global que possa proteger os interesses dos nossos paÃses", declarou.
Um dos efeitos negativos de uma eventual ação de geoengenharia, segundo Artaxo, consistiria em dar aos gestores públicos a ilusão de que não seria mais preciso investir na mitigação das emissões de carbono para deter o efeito estufa, já que haveria alternativas tecnológicas para resfriar o planeta poderia.
"Não é à toa que atualmente a maior parte das pesquisas em geoengenharia é financiada pela indústria do petróleo. Eu apoio a mitigação agressiva das emissões de carbono e tenho dúvidas sobre se a geoengenharia solar um dia será segura o suficiente para ser utilizada", declarou o fÃsico da USP.
Segundo Artaxo, os especialistas em ciências do clima, de modo geral, são extremamente céticos em relação a qualquer uma das técnicas de geoengenharia. Os resultados são imprevisÃveis e, quando são previsÃveis, são extremamente negativos para o equilÃbrio do planeta.
"Jogar aerossóis (minúsculas partÃculas sólidas que ficam em suspensão na atmosfera) na estratosfera irá alterar todo o ciclo hidrológico natural do nosso planeta, que determina onde, quando e o quanto chove. Pode parecer uma saÃda mirabolante, mas na prática pode ser um desastre completo."
Clareamento de nuvens
Várias técnicas de geoengenharia solar já foram propostas, mas as que receberam mais atenção dos pesquisadores envolvem a "injeção estratosférica de aerossóis" e o "clareamento de nuvens marinhas".
A injeção estratosférica de aerossóis imitaria o efeito das grandes erupções vulcânicas, que espalham na estratosfera - entre 11 e 50 quilômetros de altitude - milhões de toneladas de partÃculas reflexivas de sulfato. Levadas pelos fortes ventos estratosféricos, essas partÃculas circundam o globo, refletindo de volta para o espaço uma pequena parte da luz solar incidente, causando um resfriamento do planeta por um ou dois anos. Utilizando aviões ou balões para lançar grandes quantidades de partÃculas na estratosfera, seria possÃvel reproduzir artificialmente o efeito dos vulcões.
A técnica de clareamento de nuvens marinhas, por outro lado, tem foco na parte baixa da atmosfera. Amplas áreas dos oceanos são cobertas por estratos - nuvens baixas, com menos de 1 km de altitude. Os cientistas propõem que essas nuvens sejam borrifadas com gotÃculas de água do mar, cujas partÃculas iriam reduzir o tamanho médio das gotÃculas que formam as nuvens baixas. Maior quantidade de gotas menores teriam a propriedade de tornar as nuvens mais brilhantes e elas refletiriam mais radiação solar de volta ao espaço. Além disso, com gotas menores, as nuvens se manteriam por mais tempo cobrindo o oceano e refletindo o Sol.
"Assim como o lançamento de aerossóis na estratosfera, a intervenção nas nuvens baixas sobre o oceano também mexeria diretamente com o ciclo hidrológico do planeta. Não há nenhuma dúvida de que isso iria desequilibrar todo o regime de chuvas, porque estarÃamos alterando a cobertura de nuvens natural do planeta", explicou Artaxo.
Outras técnicas. Diversas outras técnicas já foram propostas, mas sua aplicação no futuro é considerada menos provável, seja porque geram mais problemas que soluções, porque têm eficácia limitada, ou porque o custo seria muito alto e a logÃstica complexa demais.
Uma dessas técnicas consiste em fertilizar uma área marinha com ferro solúvel, a fim de acelerar o ciclo de enxofre natural do oceano, tornando-o mais reflexivo. O processo também faria o oceano produzir mais dimetilsulfeto, o que poderia ainda tornar mais reflexivas as nuvens marinhas.
Outra alternativa, considerada extremamente cara e pouco eficiente, envolve pintar de branco todos os telhados das cidades, para refletir uma quantidade maior de energia solar. Uma opção de implementação ainda mais difÃcil seria cobrir áreas gigantescas dos desertos com milhares de quilômetros quadrados de plásticos. Outra ideia extremamente cara seria o lançamento ao espaço de grandes espelhos que ficariam posicionados estrategicamente na órbita da Terra para defletir uma parte da luz solar de volta ao espaço.
Caminho sem volta. De acordo com Artaxo, todas essas técnicas têm problemas enormes, mas o principal deles é que nenhuma delas poderia ser aplicada temporariamente.
"Toda geoengenharia precisaria ser permanente, porque se a radiação do Sol parasse de ser refletida para o espaço, todo o calor que não havia sido assimilado pelo sistema climático voltaria de uma só vez. Assim, todo o malefÃcio que fosse evitado pela geoengenharia retornaria inteiramente. Se as técnicas fossem implementadas e tivéssemos uma grave crise econômica, ou uma guerra global, por exemplo, estarÃamos perdidos."
Além de Artaxo, assinam o artigo na Nature Atiq Rahman (Bangladesh), Asfawossen Asrat (Etiópia), Andy Parker (Reino Unido), Tara Dasgupta (Jamaica), Arunabha Ghosh (Ãndia), Aphiya Hathayatham (Tailândia), Rodel Lasco (Filipinas), enehuro Lefale (Nova Zelândia), John Moore (China), Adib Qaiyum Suleri (Paquistão) e Nelson Torto (Quênia).
Fonte: Estadão Conteúdo