02/03/2017 19h00
Goleiro Bruno pode fazer propaganda de modelo prisional alternativo
"A Apac é uma obra de Deus." A frase, dita pelo ex-goleiro do Flamengo, Bruno Fernandes das Dores de Souza, no dia em que deixou a unidade da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) de Santa Luzia, na região metropolitana de Belo Horizonte, vai virar tema de uma campanha para divulgar o sistema alternativo de cumprimento de pena ainda pouco conhecido no Brasil. De acordo com o advogado Mário Ottoboni, de São José dos Campos, idealizar do método Apac, o goleiro Bruno será uma espécie de garoto-propaganda desse regime prisional.
Condenado a 22 anos e três meses pela morte de Eliza Samúdio, em 2010, ele obteve autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para aguardar o julgamento do recurso em liberdade e deixou a prisão no último dia 24. "Ele conheceu o sistema convencional e a Apac, então tem condições de falar sobre os dois. O que o Bruno tem dito à imprensa é que a Apac o salvou, então ele já está fazendo propaganda da Apac. Estou à espera de um contato dele para uma conversa sobre isso", disse Ottoboni. Antes de ser transferido para a Apac de Santa Luzia, em setembro de 2015, Bruno havia passado cinco anos em presÃdios de segurança máxima do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.
Ottoboni acredita que o ex-goleiro Bruno aceitará divulgar o modelo de prisão que o ajudou na sua recuperação. "Ele ganhou vida nova lá, fez seis cursos, conseguiu visitar as filhas e até se casou dentro da Apac." O escritório do advogado Lúcio Adolfo, que defende Bruno, informou que apenas ele poderia falar a respeito. O ex-goleiro não foi localizado. Para ser selecionado para a Apac, a famÃlia do preso precisa morar na região da unidade e ele deve manifestar disposição de seguir uma disciplina rigorosa, que inclui horas de estudo e trabalho. Não há agentes armados e os próprios detentos preparam suas refeições.
O método desenvolvido por Ottoboni foi exportado para paÃses como Alemanha, Argentina, Estados Unidos, Inglaterra, PaÃs e Gales Nova Zelândia e Noruega. No Brasil, são cerca 100 em apenas quatro Estados, a maioria em Minas Gerais. O modelo foi reconhecido pelo Prison Fellowship Internacional, organização que atua como órgão consultivo da Organização das Nações Unidas (ONU) para assuntos penitenciários, como uma alternativa para humanizar a execução da pena.
Na Apac, o custo do preso é 50% menor e não são admitidos integrantes de facções. "Os presÃdios brasileiros são faculdades do crime, não recuperam ninguém. O preso fica enjaulado, esquecido e abandonado à própria sorte. Aà a facção oferece proteção para a famÃlia, drogas e mordomias e o sujeito acaba virando operário do crime."
Em São Paulo, no final da década de 1990, as Apacs foram substituÃdas pelos 22 Centros de Ressocialização (CR), onde os presos têm à disposição serviços de saúde, atendimento odontológico, psicológico, jurÃdico, social e educativo, além de trabalho. As unidades são administradas pela Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), que assegura que o sistema possibilita participação na comunidade e a recuperação dos detentos.
Embora não seja considerado um modelo alternativo de cumprimento de pena, a Pastoral Carcerária, ligada à Igreja católica, oferece assistência religiosa e social aos internos do sistema prisional. A estrutura inclui uma coordenação nacional e representantes nos Estados. São cerca de mil agentes voluntários, apoiados por uma equipe jurÃdica com advogados e estagiários, que prestam assistência aos presos, seus familiares e egressos. A Pastoral também atua junto a governos e órgão de direitos humanos pela melhoria nas condições das prisões.
Em Porto Alegre, a gaúcha Carmela Grune desenvolveu o projeto Direito no Cárcere, em que estabelece com os detentos plataformas de expressão por meio da cultura popular e da educação inclusiva. O projeto, iniciado em 2011, ainda está restrito à s alas de dependentes quÃmicos do PresÃdio Central de Porto Alegre, mas já beneficiou 650 detentos. Entre as atividades estão palestras, oficinas de composição, artes plásticas, literatura, fotografia e vÃdeo, além de práticas esportivas.
Pegadas
Na Argentina, o Serviço Penitenciário Federal está usando o adestramento de cães como ferramenta de reinserção de presos na sociedade. O programa é destinado a quem cumpre o final da pena, sob o argumento de que o animal oferece ajuda profissional ao detento e, ao mesmo tempo, o prepara para seguir a profissão de adestrador.
Chamado "Huellas de Esperanza" (Pegadas da Esperança), o projeto começou em 2011 e, no ano passado, foi levado a uma unidade prisional de mulheres argentinas e estrangeiras, geralmente condenadas por terem sido flagradas como "mulas" de traficantes de drogas.
Além da adesão voluntária ao programa, o detento precisa preencher requisitos de bom comportamento e afeição por animais. Dez detentos homens e 18 mulheres já passaram pelo programa, que dura cerca de dois anos, dependendo das condições do animal. "Nosso objetivo é que exista violência zero contra o animal e que o preso saia com uma alternativa de trabalho, no adestramento ou em pet shops, como já ocorreu com alguns deles que hoje estão livres e encontraram no adestramento de cães e gatos a forma de reinserção social", disse Julio Cepeda, coordenador do programa, à BBC Brasil.
Fonte: Estadão Conteúdo