27/05/2019 08h20
'Governos devem promover educação para pais', diz porta-voz da ONU
Além das polÃticas econômicas e sociais, os governos devem se preocupar também em promover programas de educação para pais. É o que defende a cientista polÃtica polonesa Renata Kaczmarska, porta-voz do Secretariado da ONU para questões de famÃlia.
Na última sexta-feira, 24, a especialista esteve em São Paulo para apresentar estudo das Nações Unidas que mostra como polÃticas públicas voltadas para a famÃlia podem ajudar no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, conjunto de 17 metas definidas pelas ONU que devem ser cumpridas até 2030. O evento foi promovido pela associação Family Talks em parceria com a Prefeitura de São Paulo.
Em entrevista exclusiva ao jornal O Estado de S. Paulo, Renata destacou a importância de educar os homens para que eles exerçam uma paternidade responsável.
O estudo da ONU aponta algumas áreas prioritárias para discutir o impacto de polÃticas voltadas para a famÃlia. Quais são elas e por que elas foram priorizadas?
Da perspectiva da famÃlia, as áreas de pobreza, nutrição, saúde e educação são as mais importantes porque têm um papel direto no alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Isso porque os pais influenciam os comportamentos das crianças, então se os pais têm recursos suficientes para fornecer nutrição adequada para as crianças, elas serão mais saudáveis. Na saúde, se os pais levarem as crianças para serem vacinadas, é a mesma coisa. Na questão da pobreza, é importante focar na famÃlia porque é onde a pobreza se reproduz, ou seja, você tem que interrompê-la no nÃvel familiar para que a próxima geração não herde isso.
O estudo também menciona a importância da igualdade de gênero dentro do núcleo familiar para que essa igualdade tenha reflexo na sociedade como um todo. Como buscar essa igualdade em paÃses como o Brasil, onde milhões de crianças nem sequer têm o nome do pai no registro?
A paternidade responsável é uma das coisas que devemos promover. Há paÃses que promovem programas que ensinam o que significa ser pai, o que é masculinidade, e uma das caracterÃsticas é ser responsável. Em muitos paÃses é comum os homens não reconhecerem seus filhos e as crianças ficarem sob os cuidados das mães e das avós. Muitos homens acham que sua única função é econômica, então, se estão desempregados, se afastam. A questão é que mesmo que eles não tenham como oferecer tanto no aspecto econômico, eles têm que entender que são muito importantes para a famÃlia e têm que se envolver como puderem: cuidando das crianças, cozinhando para elas. Temos que mudar essa visão de que a função deles é econômica.
E como os governos podem interferir nessas questões sem ferir a autonomia da famÃlia?
Esse é um argumento comum que escuto: que a famÃlia está na esfera privada e, por isso, não deverÃamos interferir nelas. No entanto, as decisões familiares têm real impacto na questão pública. Ninguém está tentando substituir a famÃlia, queremos ajudá-la a executar bem suas funções. A educação parental tornou-se uma questão importante. Muitos paÃses têm boas iniciativas. Por exemplo, na Ãfrica do Sul, há um programa promovido pelo governo para educar homens e melhorar suas habilidades como pais. Nas Filipinas, há um programa interessante de transferência de renda que não é condicionado somente a questões de saúde e educação, como é aqui no Brasil com o Bolsa FamÃlia. Lá, os pais também têm que frequentar aulas de desenvolvimento familiar, inclusive os homens. Todo mês eles têm que ir a essas aulas e há turmas separadas de acordo com a idade das crianças. Eles reúnem educadores, acadêmicos e outros profissionais, afinal uma criança não vem com um manual. Então é um programa que incentiva você a ser responsável.
Quais são os melhores formatos de programas de transferência de renda para famÃlias?
Os programas de transferência condicional de renda são bons especialmente em paÃses que ainda têm bolsões de extrema pobreza, onde é necessário quebrar esse ciclo já para a próxima geração. Eles são bons, mas não são suficientes. É preciso também investir em infraestrutura básica como educação de qualidade, acesso à saúde. Outra coisa importante é investir em programas de atividades para crianças fora do horário escolar. Uma coisa que temos visto em alguns paÃses são programas intergeracionais, que tenham atividades para idosos e crianças e nos quais eles possam interagir.
Essa questão do envelhecimento é outro desafio para as famÃlias em todo o mundo. Há paÃses na Europa que já estão pagando uma espécie de salário aos familiares que atuam como cuidadores porque geralmente eles têm que deixar seus empregos, certo?
Sim, em alguns paÃses os idosos podem escolher quem vai cuidar deles, pode ser alguém da famÃlia ou de fora e isso (pagamento) está sendo usado porque os paÃses querem desafogar os serviços sociais, então já que eles teriam que pagar de qualquer forma, eles dão mais possibilidades de escolha. E em alguns paÃses, como Hungria e Austrália, esse modelo é usado também para os cuidadores das crianças. Se as famÃlias escolhem os avós, o governo dá dinheiro a eles. Isso é uma opção interessante em paÃses em que a educação infantil é cara.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo