04/06/2018 18h11
HIV: vacina experimental neutralizou mais de 30% dos vírus em animais, diz estudo
Um grupo de cientistas dos Estados Unidos testou uma vacina experimental que foi capaz de ativar anticorpos e eliminar dezenas de linhagens do vÃrus HIV em camundongos, porquinhos da Ãndia e macacos. Os resultados do teste foram publicados nesta segunda-feira, 4, na revista cientÃfica Nature Medicine.
O artigo foi publicado por cientistas ligados ao Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niaid, na sigla em inglês), além de pesquisadores da Universidade Vanderbilt, do Centro de Biologia Estrutural de Nova York, da Universidade da Califórnia em São Francisco e da Universidade Columbia - todos nos Estados Unidos.
De acordo com Anthony Fauci, diretor do Niaid, a vacina se baseia em um "calcanhar de Aquiles" do vÃrus, isto é, um local vulnerável da estrutura do vÃrus.
"Os cientistas utilizaram seu detalhado conhecimento da estrutura do HIV para descobrir um local incomum de vulnerabilidade no vÃrus. Com isso eles puderam desenhar uma vacina nova e potencialmente poderosa. Esse elegante estudo tem potencial para ser um passo importante na busca por uma vacina segura e eficaz contra o HIV", afirmou Fauci.
Com os bons resultados dos testes, os cientistas anteciparam para o segundo semestre de 2019 um ensaio clÃnico em humanos com a nova vacina.
De acordo com Fauci, o Niaid tem duas abordagens complementares na busca pela vacina do HIV. Em uma delas - que foi utilizada no novo estudo -, os cientistas identificam poderosos anticorpos que possam neutralizar várias linhagens do vÃrus e, depois disso, tentam produzir os anticorpos com uma vacina baseada na estrutura das proteÃnas da superfÃcie do HIV, onde os anticorpos aderem. Nesse método, portanto, os cientistas começam estudando a resposta imunológica mais promissora e depois trabalham para desenvolver uma vacina que induza essa resposta.
Na outra abordagem, mais empÃrica, os cientistas começam avaliando as candidatas a vacina mais promissoras a partir da eficácia em testes clÃnicos com humanos. Depois, tentam utilizar os resultados positivos, em novos ensaios clÃnicos, a partir da análise da resposta imune apresentada pelos participantes.
Nos últimos anos, os cientistas descobriram inúmeros anticorpos poderosos que ocorrem naturalmente e que podem impedir diversas linhagens do HIV de infectar células humanas em laboratório. Metade das pessoas que vivem com o HIV utilizam esses "anticorpos amplamente imunizantes", mas, em geral, apenas vários anos após a infecção, quando o vÃrus já está estabelecido no organismo.
Os cientistas identificaram e caracterizaram os "epÃtopos" do HIV, isto é, os locais de sua estrutura onde adere cada um desses anticorpos amplamente neutralizantes. Vários laboratórios ao redor do mundo estão desenvolvendo candidatas a vacinas contra o HIV com base na estrutura desses epÃtopos, com o objetivo de persuadir o sistema imunológico de pessoas HIV-negativas a produzir anticorpos protetores depois da vacinação.
A nova vacina experimental se baseou no epÃtopo conhecido como "peptÃdeo de fusão do HIV", que havia sido identificado pelos cientistas do Niaid em 2016. O peptÃdeo de fusão, uma curta sequência de aminoácidos, é parte do "espinho" que existe na superfÃcie do HIV e que é utilizado pelo vÃrus para entrar nas células humanas.
De acordo com os autores do novo estudo, o peptÃdeo de fusão do HIV é especialmente promissor para ser utilizado em uma vacina porque sua estrutura é a mesma na maioria das linhagens do HIV. E também porque o sistema imunológico claramente é capaz de "enxergá-lo" e produzir uma forte resposta imune contra ele. O peptÃdeo de fusão não possui os açúcares que atrapalham a "visão" do sistema imune em outros epÃtopos do HIV.
Para desenvolver a vacina, os cientistas produziram diferentes imunógenos, que são proteÃnas com a função de ativar a resposta imune. Eles foram desenhados a partir da estrutura do peptÃdeo de fusão. Antes, os pesquisadores avaliaram os imunógenos utilizando uma coleção de anticorpos que têm como alvo o peptÃdeo de fusão. Os imunógenos foram então testados em camundongos para descobrir qual deles era mais eficaz na ativação de anticorpos neutralizantes para o peptÃdeo de fusão.
Resultados. Segundo os resultados do estudo, o melhor imunógeno consistia em oito aminoácidos do peptÃdeo de fusão ligados a um transportador, que gerou uma forte resposta imune. Os cientistas então testaram diferentes combinações de injeções da proteÃna em camundongos e analisaram os anticorpos que a nova vacina gerou. Os anticorpos aderiram ao peptÃdeo de fusão do HIV e neutralizaram até 31% dos vÃrus de um total de 208 linhagens de HIV.
Com base nas análises, os pesquisadores ajustaram a vacina e fizeram testes em porquinhos da Ãndia e macacos. O teste também produziu anticorpos que neutralizaram uma fração substancial das linhagens de HIV, fornecendo evidências iniciais de que a vacina pode funcionar em múltiplas espécies.
Os cientistas agora estão trabalhando para aprimorar a nova vacina, tornando-a mais potente e capaz de conseguir resultados mais consistentes com menos injeções. Os pesquisadores também estão isolando os anticorpos amplamente neutralizantes adicionais que foram gerados pela vacina nos macacos. Eles avaliarão a capacidade desses anticorpos para proteger os animais de uma versão do HIV em macacos.
Os pesquisadores do Niaid dizem que irão utilizar sua descoberta para otimizar a vacina e, então, fabricar uma versão dela adequada para os testes de segurança em voluntários humanos em um teste clÃnico cuidadosamente desenhado.
Fonte: Estadão Conteúdo