06/04/2017 16h39
Impacto de longo prazo do zika no País pode chegar a R$ 36 bi
O vÃrus zika poderá custar à economia brasileira até US$ 4,7 bilhões no curto prazo e chegaria, no pior dos cenários, a ter um impacto de US$ 11,6 bilhões (R$ 36 bilhões) ao longo dos próximos anos, aprofundando a pobreza em comunidades mais afetadas pela epidemia. O alerta foi publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Federação Internacional da Cruz Vermelha, em um levantamento inédito sobre as consequências econômicas do surto do vÃrus e sua ameaça para o combate à desigualdade social.
Para determinar os custos, as entidades avaliaram o impacto nos sistemas de saúde, em programas de ajuda a crianças, na receita de regiões com o turismo, no impacto com gastos para a prevenção, diagnóstico, perda de produtividade dos trabalhadores, o esforço de impedir a proliferação do mosquito e o custo de cuidar de uma geração de crianças com microcefalia.
As estimativas apontam que, para cada criança com microcefalia nascida no Brasil, o custo seja de US$ 890 mil ao longo de sua vida, entre gastos médicos e apoio social. No caso de pessoas afetadas pela SÃndrome de Guillan-Barré, o impacto será de US$ 222 mil.
No primeiro momento, o que a ONU tentou calcular é o impacto imediato do atual surto. Algumas estimativas apresentadas no documento acreditam que, em média, 60 milhões de pessoas possam ser afetadas entre 2015 e o final de 2017 pelo vÃrus em todo o mundo. Mas a OMS estima que existam neste inÃcio de ano 4 milhões de pessoas afetadas na América Latina.
Para tentar desenhar seu mapa econômico, a ONU apresentou três cenários sobre a dimensão do surto entre 2015 e 2017. No primeiro, a previsão era de que o ritmo de transmissão do vÃrus fosse mantido inalterado nesses três anos. Neste caso, o custo para a economia brasileira até o final do ano será de US$ 960 milhões.
Em um segundo cenário, a ONU estima que 20% da população possa estar afetada. A conta para o Brasil, portanto, aumentaria para US$ 1,6 bilhão.
Finalmente, em um terceiro cenário, 73% da população seria contaminada em um curto prazo. Neste caso, o impacto econômico para o Brasil seria de US$ 4,6 bilhões.
Futuro
Mas esse é apenas o custo nos três primeiros anos da doença. Para a ONU e a Cruz Vermelha, o real desafio será o futuro de comunidades e regiões diante da perspectiva de que a epidemia se torne algo recorrente.
Com base nesses três cenários, a ONU estima o impacto ainda do zika ao longo dos anos para os paÃses afetados. Uma vez mais, o Brasil é o que mais sentiria uma consequência econômica. No cenário mais favorável, o custo para o PaÃs no longo prazo seria de US$ 2,7 bilhões. No cenário "médio", a conta subiria para US$ 4,4 bilhões, contra US$ 11,7 bilhões no cenário de maior risco.
Neste último caso, o custo do vÃrus zika para toda a América Latina ao longo de anos poderia chegar a US$ 29 bilhões.
Para a ONU, o maior risco é o de reverter ganhos sociais obtidos nos últimos anos. Os dados mostram que o impacto da doença tem sido maior que os programas de apoio que existiam nas regiões para lidar com a pobreza, como o Bolsa FamÃlia.
"No Brasil, os custos indiretos da microcefalia foram estimados em US$ 1,7 mil por mês, seis vezes o valor do benefÃcio adicionado ao Bolsa FamÃlia para mães com crianças com microcefalia", alertou.
O temor é de que grande parte desses custos sejam arcados pelas famÃlias, criando "um enorme peso financeiro, que os poderia empurrar ainda mais para a pobreza".
"Milhões na região estão sob o risco de serem jogados de volta para baixo da linha da pobreza", alertam as entidades.
Saúde
Outro alerta do estudo se refere aos sistemas de saúde do Brasil e do restante da América Latina. Para a ONU, o vÃrus "expôs" as falhas dos sistemas, mostrou suas desigualdades e atendimento inadequado à s crianças com microcefalia.
Um dos exemplos usados é a questão do real impacto da recomendação usada para adiar a gravidez em algumas regiões. "Em Pernambuco, a taxa de nascimento caiu em 7% em 2016", indicou. "Mas, nas clÃnicas provadas que prestam serviços para clientes mais ricos, a queda foi de 45%."
Para a entidade, alta frequência de violência sexual, gravidez não planejada e acesso desigual aos serviços sobre saúde reprodutiva, além de "obstáculos religiosos", impedem que tal mensagem seja de fato aplicada por parte da população.
De uma forma geral, a ONU estima que a América Latina deva esperar uma conta de US$ 18 bilhões ao longo do perÃodo entre 2015 e 2017 por causa da zika e que o risco de uma repercussão social é real.
"A epidemia terá um impacto de longo prazo, afetando de forma desproporcional as comunidades mais pobres e podendo contribuir para ampliar a desigualdade na região", alertou a entidade.
Os cálculos apontam que um aumento de 5% na taxa de infecção custaria ao continente em média US$ 1 bilhão por ano. "Diante das incertezas relacionadas à proliferação do vÃrus e das condições médicas associadas a ele, o informe conclui que a epidemia terá um impacto significativo", indicou.
"Além de perdas tangÃveis para o PIB (Produto Interno Bruto) e para economias dependentes de turismo, haverá ainda uma pressão sobre os sistemas de saúde e o vÃrus pode, no longo prazo, ameaçar décadas de desenvolvimento social e ganhos no setor da saúde", indicou Jessica Faieta, diretora do Programa da ONU para o Desenvolvimento para a América Latina. "Zika afeta de forma desproporcional os paÃses mais pobres da região, assim como os grupos mais vulneráveis em cada paÃs."
Se o Brasil é o paÃs que terá a conta mais pesada, serão as economias caribenhas as que vão enfrentar um impacto maior, em comparação aos seus PIBs. Em média, essas regiões teriam consequências econômicas cinco vezes superiores à s da América Latina, com 80% dos custos relacionados a perdas com o turismo.
Belize e Haiti, por exemplo, poderiam perder até 1,1% de seus PIBs.
Em um esforço de reverter essas perdas, a ONU sugere que estratégias de resposta a vÃrus sejam fortalecidas e que o controle do mosquito vetor da doença, Aedes aegypti, seja integrado em um plano nacional.
"Lidar com essa proliferação pode prevenir não apenas zika, mas outras epidemias", disse.
Fonte: Estadão Conteúdo