15/10/2021 17h10
Maioria dos professores se orgulha da carreira; 77% se sentem desvalorizados
Mesmo com a pandemia, quando famÃlias disseram perceber que não é fácil ser professor, o sentimento dos docentes ainda é de baixa valorização. Em pesquisa realizada pelo Instituto PenÃnsula, entre setembro e outubro, com profissionais de escolas públicas e particulares, 74% acreditam que os professores não são respeitados no Brasil. Por outro lado, quase todos acham que são importantes para a transformação social do PaÃs e da vida dos alunos. Mais da metade (52%) diz que é "um orgulho ser professor no Brasil" e ainda dois em cada três deles escolheriam dar aulas novamente, se pudessem voltar no tempo.
"Eu me orgulho de ser professor todos os dias", diz o docente da rede estadual de Minas Romildo Calixto Amaro Junior, de 36 anos, que dá aulas de Filosofia em uma favela de Vespasiano, na região metropolitana de Belo Horizonte. "Mas a gente vive em um paÃs em que a educação é vista como mal necessário para atingir uma profissão. Poucos veem como uma possibilidade de transformação", completa.
Na pesquisa, 77% disseram que sua profissão não é valorizada pela sociedade.
Junior é um dos cinco professores - um de cada região do PaÃs - que participa de uma ação organizada pelo Instituto PenÃnsula para celebrar o Dia do Professor, comemorado nesta sexta-feira, 15.
Cada um deles foi fotografado com uma palavra que apareceu na pesquisa como sÃmbolo da valorização que eles almejam. O professor mineiro teve "tatuado" amor. "Amor é a capacidade de fazer algo que tenha significado, amor é algo que foge da lógica tecnocrática", explica, sobre a profissão.
As fotos estão expostas, a partir desta sexta e até o dia 15 de novembro, na Estação Santa CecÃlia do Metrô de São Paulo.
Salário
O Brasil tem mais de 2 milhões de professores que dão aulas em escolas públicas e particulares. O piso salarial determinado por lei fica em torno de R$ 3 mil. Na pesquisa, só 18% responderam que a remuneração é compatÃvel com o nÃvel de complexidade da sua atuação e 90% disseram que o professor não recebe bons salários.
Mesmo assim, quando indagados sobre como se sentiriam mais valorizados, questões como condições de trabalho, aprimoramento da carreira e reconhecimento pela sociedade apareceram mais que o salário.
"Uma parte da falta de reconhecimento da sociedade é o não entendimento de que sem a educação o resto das engrenagens do PaÃs vai rodar capenga", diz a diretora executiva do Instituto PenÃnsula, Heloisa Morel. "E o professor é a peça-chave para a transformação, para o desenvolvimento do PaÃs."
A pesquisa Valorização da carreira docente: um olhar dos professores foi realizada com 1,1 mil professores de todo o PaÃs. A maioria tem entre 36 e 45 anos, dá aulas no ensino fundamental e é mulher.
Pelas respostas, a média de satisfação com a profissão foi considerada baixa, especialmente entre aqueles que atuam em redes estaduais. Os que se disseram mais satisfeitos estão nas escolas municipais, seguidos dos das particulares. Para Heloisa, a real valorização docente passa pelo Brasil olhar esse profissional nas suas múltiplas dimensões.
Pesquisas mostram que paÃses como Canadá, Cingapura e Chile, que investiram fortemente no professor, tiveram avanços rápidos na educação. Isso inclui atrair os melhores alunos do ensino médio para a carreira docente, com seleção diferenciada, aprimorar a formação para deixá-la mais próxima da realidade da sala de aula, fechar cursos ruins, ter avaliações periódicas e melhores salários.
Heloisa acredita que é preciso aproveitar a maior valorização das famÃlias que ocorreu durante a pandemia para transformar a realidade e perpetuar esse efeito positivo. "Houve um entendimento maior de quanto é complexo o ofÃcio do professor. Os bons professores querem ser tratados como profissionais e não só como a pessoa que tem o dom de ensinar."
Leila Aparecida, de 45 anos, professora de LÃngua Portuguesa em uma comunidade quilombola em Jaraguari, Mato Grosso do Sul, conta que gostou de receber mensagens dos pais sobre a importância do seu trabalho, durante a pandemia. "A proximidade com as famÃlias e conhecer melhor a realidade das crianças também foram boas para nós. Deu trabalho, mas foi gratificante", conta ela, que teve de ir de casa em casa levando atividades porque muitos não tinham internet na comunidade.
Na campanha pelo Dia do Professor, Leila está com a palavra "respeito" escrita no peito. As fotos e as letras foram feitas pelo projeto Feito Tatuagem, do fotógrafo Sergio Santoian e da maquiadora Louise Helène.
"É muito difÃcil ser professor no Brasil, mas quando a gente tem compromisso a gente realiza", diz a professora da rede estadual do Pará Mariana Silva Barros, de 50 anos.
Ela dá aulas de Educação FÃsica e já foi premiada nacionalmente por um projeto para ensinar atletismo com materiais alternativos, como varal de bambu e pneus. Nas fotos, ela aparece com a palavra "valorização" pelo corpo. "Meu trabalho é uma forma de ajudar muitas crianças que só dependem da escola pública."
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo