27/12/2019 13h30
'Mamãe Damares vai mandar bola, livro, arroz e feijão. Camisinha, não'
A ministra da Mulher, FamÃlia e Direitos Humanos, Damares Alves, afirma ter como meta reformular a ressocialização de jovens infratores e avisa que acabará com a visita Ãntima em unidades do tipo. "Mamãe Damares vai mandar bola, livro, arroz e feijão. Camisinha e lubrificante, não", disse ao jornal O Estado de S. Paulo. Desde 2012, uma lei dá direito à visita Ãntima a jovens infratores casados ou, comprovadamente, em união estável.
Apesar da popularidade, Damares - pastora, pedagoga e advogada - descarta hoje ser candidata. Na conversa, chorou mais de uma vez ao falar de polêmicas.
Leia os principais trechos da entrevista.
O Orçamento da sua pasta teve corte de 20% para o próximo ano. Como trabalhar com isso?
Duplicamos o número de emendas (verbas que parlamentares escolhem as áreas onde aplicar). Teve secretaria que saiu de R$ 1 milhão para R$ 15 milhões em emendas, como a do Idoso. E parcerias. Fechamos com a Avon para divulgar o Disque 180 (canal para denunciar violência à mulher). O anúncio estará em revistas e produtos. Numa 2ª fase, treinaremos vendedoras para serem agentes de proteção da mulher.
Sem contrapartida?
É. O poder público não vai fazer sozinho. Precisamos descentralizar ações. Chega de técnicos, de "ólogos" atrás de uma mesa decidindo o que tem de acontecer lá na ponta.
Qual é a agenda de 2020?
Estamos construindo o maior pacto de proteção à criança no PaÃs. Temos R$ 100 milhões da Petrobras para ampliar e construir unidades socioeducativas. Preciso entregar 62 unidades no PaÃs. Há 5 mil meninos nas ruas. Nos próximos três anos, priorizaremos a entrega de unidades, mas não só construir. Queremos mudar o atendimento. Eles têm ido à s unidades e saÃdo piores. Farei unidades em fazenda, voltadas ao esporte de alto rendimento e trabalhar o ensino de qualidade.
Mas não dá para fazer tudo isso só com a verba da Petrobras...
O dinheiro de leilões, estatais, vendas... Parte irá para nossas unidades. Consigo construir todas em três anos e também fazer parceria público-privada. E não aceito visita Ãntima para meninos. Qual a idade da namorada que vai lá transar com ele? Vou enfrentar isso. Mamãe Damares vai mandar bola, livro, arroz e feijão. Camisinha e lubrificante, não.
No lançamento do disque 180, a sra. ficou calada. O que achou da repercussão de sua atuação?
Devia ter tido um pouco mais de compreensão da imprensa. A ideia da campanha era "não tire a voz de uma mulher" e eu queria participar. Queria que vissem uma mulher que fala demais ficar no silêncio. Não me arrependo.
A sra. está entre os ministros mais bem avaliados no governo. A que atribui essa popularidade?
Falamos o que o Brasil queria ouvir, como proteção da infância. Bolsonaro foi eleito por maioria e quem votou nele sabia quais são as propostas. Tem um tripé: economia, segurança pública e valores. Você observa que esses três ministérios estão no coração do povo.
A sra. defende a licença-maternidade de até um ano? Consegue apoio da polÃtica liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes?
Vamos. Guedes é liberal, mas com coração no social.
A sra. já disse se ver empoderada. O filho do presidente, deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), pediu que professores não ensinem feminismo. Concorda?
Quando falo que sou empoderada, uso o sonho das feministas: empoderar uma mulher. Queria dizer à s feministas que me criticam tanto que poderÃamos ter diálogo. Poderiam usar meu exemplo na luta delas. Sou mulher que veio de baixo, não tinha nem sapato para ir à escola e hoje sou ministra.
Mas isso pode ser ensinado na escola?
Respeito à mulher tem de ser falado na escola.
Desse ponto de vista, a sra. pode ser considerada feminista?
Mas sou feminista. O problema é: o que é o feminismo? Essas loucas na rua gritando, com bandeiras, peladas e quebrando tudo? O que questiono é a forma que lutam por igualdade. Se lutar pelo direito da mulher é ser feminista, eu sou.
Como vê a diferença salarial entre mulher e homem?
Temos de acabar com essa palhaçada. Vamos ter de denunciar e aplicar multas. É lei. O nosso 180 agora vai ter um canal direto para denunciar isso sem precisar se identificar. Se no seu trabalho acontecer, pode denunciar que vamos para cima. Não vai ficar barato.
O presidente falou a um repórter "Você tem uma cara de homossexual terrÃvel, nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que não é crime ser homossexual". A sra. está à frente de polÃticas contra o preconceito a LGBT+. Essas falas ajudam?
Me parece que o presidente tentou consertar isso depois. O que acontece com meu presidente: ele fala muito. Não quis dizer "estou te julgando pela sua aparência", mas "não julgo ninguém pela aparência".
A senhora defende o excludente de ilicitude (situação em que o militar ou agente de segurança pode ser isentado de punição ao cometer algo considerado proibido por lei, como matar)?
Concordo com o ministro (Sergio) Moro (Justiça) na forma como apresentou a proposta (pacote anticrime). Não posso dizer que todos os policiais nas ruas vão pegar arma e sair matando tão somente por matar. Trabalho com a PolÃcia Militar. Dizer que todos que estão lá são bandidos e que foram treinados para matar e só para matar é a gente colocar em risco a sociedade.
Há o caso Ãgatha, Paraisópolis. Ampliar o excludente não pode aumentar a violência?
Não acho. Vai dar mais segurança jurÃdica a quem combate a violência. Trabalho em comunidades a minha vida inteira e sei o que acontece lá. O maior salário do Brasil deveria ser para professor e policial.
Como vê a investigação contra o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ)?
Ele é claro nas declarações. Quer transparência na investigação e que seja afastada toda e qualquer ideologia polÃtica do processo investigatório.
É candidata em 2022?
Sou candidata à rede numa casinha numa praia em Aracaju.
A sra. cogitou parar...
Quando o presidente me chamou, foi para construir um ministério. Achei que quando edificasse, poderia sair. Mas percebi que não é hora. Eu tinha a ideia de que seria ministra por seis meses. Estou cansada, queria parar, eu estava me aposentando já. Quero namorar.
Tem pretendente?
Não. Se tiver, me manda o currÃculo.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo