08/12/2016 18h45
Múmia de criança do século 17 revela as amostras mais antigas de varíola
A múmia de uma criança do século 17, encontrada em uma cripta sob uma igreja da Lituânia, revela a mais antiga amostra do vÃrus da varÃola já descoberta. De acordo com os autores da pesquisa, publicada nesta quinta-feira, 8, na revista Current Biology, a análise genética do vÃrus revela que a varÃola pode ter surgido muito mais recentemente do que se imaginava.
A análise do vÃrus encontrado na múmia foi comparada a análises genéticas de amostras recentes do vÃrus da varÃola. A conclusão foi que ambas as amostras de vÃrus têm um ancestral comum que teve origem entre 1588 e 1645.
"Já haviam sido encontradas múmias egÃpcias de 3 mil a 4 mil anos de idade com cicatrizes de pústulas que foram interpretadas como casos de varÃola. Mas a nova descoberta desafia essa interpretação, sugerindo que a linha do tempo da varÃola entre populações humanas pode estar totalmente incorreta", disse a autora principal do estudo, Ana Duggan, da Universidade McMaster, no Canadá.
Depois de pedir autorização para a Organização Mundial de Saúde (OMS), os autores da pesquisa reuniram amostras de DNA desintegrado do vÃrus da varÃola encontrado na pele da múmia. Depois de reconstruir todo o genoma da antiga linhagem de vÃrus, eles as compararam a amostras de versões da varÃola coletadas entre 1940 e 1977, quando o vÃrus foi erradicado de fato. A OMS declarou a erradicação da varÃola em 1980.
A conclusão, de que ambos os vÃrus tiveram um ancestral comum surgido entre 1588 e 1645, sugere que está nesse intervalo a data do verdadeiro surgimento da doença, segundo os cientistas. O perÃodo coincide com a era das grandes navegações, quando a exploração, migração e colonização podem ter espalhado a varÃola pelo planeta.
"Agora que temos uma linha do tempo, precisamos perguntar se as evidências históricas de varÃola documentadas anteriormente - que remontam ao reinado de Ramsés 5 (morto em 1145 a.C), indo até o século 16 - são reais. Trata-se de fato de casos de varÃola, ou são erros de identificação? Sabemos que é fácil confundir varÃola, catapora e sarampo, por exemplo", disse outro dos autores, Henrik Poinar, diretor do Centro de DNA Antigo da Universidade de McMaster.
Além de fornecer uma linha do tempo mais precisa para evolução da varÃola, os cientistas também conseguiram identificar perÃodos distintos da evolução do vÃrus. Um dos exemplos mais claros disso, segundo eles, ocorreu na época em que o britânico Edward Jenner desenvolveu a primeira vacina contra o vÃrus, em 1796.
No fim do século 18, segundo os cientistas, o vÃrus da varÃola parece ter se desdobrado em duas linhagens - varÃola maior e varÃola menor -, o que sugere que a imunização com a vacina de Jenner, que levou à erradicação da doença, pode ter mudado as pressões de seleção que agem sobre o vÃrus, provocando sua divisão em duas linhagens.
A varÃola maior é altamente virulenta e mortal, enquanto a varÃola menor é considerada relativamente benigna. Para os cientistas, a vacinação no fim do século 18 provocou um "gargalo populacional" que explica a divisão do vÃrus. A datação do vÃrus ancestral da varÃola menor coincide com o tráfico de escravos pelo Oceano Atlântico, que provavelmente foi responsável por seu alastramento pelo mundo.
"Isso levanta importantes questões sobre como um patógeno (microrganismo que provoca doenças) se diversifica diante da vacinação. Mesmo que a varÃola tenha sido erradicada da população humana, não podemos nos tornar negligentes com sua evolução - e possÃvel reemergência - até que tenhamos entendido completamente suas origens", disse Ana.
Incertezas
Os pesquisadores acreditam que o novo estudo poderá ser utilizado para identificar como a amostra que eles descobriram na Lituânia se compara a outras que se espalhavam por outros paÃses europeus na mesma época.
"Agora sabemos que toda a evolução das linhagens estudadas ocorreu por volta de 1650, mas ainda não sabemos quando a varÃola apareceu pela primeira vez entre humanos, nem sabemos de que animal ela veio", disse outro dos autores da pesquisa, Edward Holmes, da Universidade de Sydney (Austrália).
"Não sabemos nada disso porque não temos amostras históricas mais antigas com as quais possamos trabalhar. Portanto, a descoberta coloca sob nova perspectiva essa importantÃssima doença, além de nos mostrar que o conhecimento histórico dos vÃrus que possuÃmos são apenas a ponta do iceberg", afirmou Holmes.
Acredita-se que o massacre dos indÃgenas na América Central, durante o inÃcio da colonização, tenha sido provocado por varÃola introduzida pelos espanhóis. Os autores do novo estudo dizem que permanece incerto se essa hipótese é compatÃvel com a data do aparecimento do ancestral de todas as amostras conhecidas de varÃola, por volta de 1580.
Para confirmar a hipótese, seria necessário examinar restos de indivÃduos enterrados após epidemias na América Central, segundo os pesquisadores. A pesquisa também teve participação de cientistas da Universidade de Helsinque (Finlândia) e da Universidade de Vilnius (Lituânia).
Fonte: Estadão Conteúdo