21/09/2017 18h20
Na ONU, Brasil diz que vai continuar a proteger 'todas as famílias'
O governo brasileiro afirma na ONU que vai proteger "todas as famÃlias" e tenta acomodar sua posição diante da pressão sofrida nos últimos dias por parte da bancada evangélica e católica no Congresso Nacional.
"O Brasil reitera que vai continuar a proteger famÃlias compostas por um homem e uma mulher, assim como protege todas as famÃlias, de acordo com as legislações brasileiras e das decisões do Supremo Tribunal", disse a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo.
A declaração foi feita nesta quinta-feira, 21, em Genebra, depois que deputados evangélicos e católicos se uniram para pressionar o governo de Michel Temer a modificar a posição do PaÃs sobre uma proposta do Vaticano de definir a "famÃlia natural" e o casamento com "marido e esposa".
A proposta da Santa Sé foi apresentada durante a Revisão Periódica Universal do Brasil, em maio na sede da ONU. Naquele momento, governos de todo o mundo e as Nações Unidas avaliaram as polÃticas de direitos humanos no Brasil.
No total, 246 recomendações foram feitas ao PaÃs por mais de cem paÃses sobre direitos humanos. Na semana passada, num documento enviado à ONU, o Brasil indicou que aceitaria 242 delas. Mas que se recusaria a aceitar quatro.
Uma delas foi a do Vaticano de "proteger a famÃlia natural e o casamento, formado por um marido e uma esposa, como uma unidade fundamental da sociedade".
A notÃcia da rejeição por parte do governo gerou a mobilização de bancadas de parlamentares. No dia 13, representantes das frentes parlamentares Evangélica e Católica estiveram no Palácio do Planalto para pedir uma revisão na decisão do governo de rejeitar a recomendação do Vaticano.
Nesta semana, o lÃder do PSC na Câmara, deputado Victório Galli (PSC-MT) emitiu uma nota informando que, por telefone, Temer o informou "que o governo brasileiro voltou atrás e vai aceitar a recomendação do Vaticano que pede proteção dos nascituros e da famÃlia formada por marido e mulher, na parte da Revisão Periódica Universal do Conselho de Direitos Humanos da ONU".
Nesta quinta-feira, ao contrário do que foi anunciado pelo lÃder do PSC, o Brasil não retirou seu texto original dos registros da ONU e manteve o documento que rejeita a proposta. Mas, pressionado, o governo brasileiro optou por pedir a palavra na ONU para explicar sua posição. Na avaliação do Brasil, essa medida era "incompatÃvel com nosso sistema legal".
CrÃticas
A postura do Brasil na ONU em outros temas de direitos humanos ainda foi alvo de duras crÃticas por parte de entidades. A Anistia Internacional, por exemplo denunciou que o Brasil "mostra duas caras".
"Uma nas Nações Unidas apoiando muitas das recomendações que acata de outros Estados, e outra bem distinta dentro do próprio paÃs, encabeçando uma ofensiva contra estes mesmos direitos", alertou.
A Anistia Internacional aponta que o Brasil aceitou várias das recomendações da ONU. Mas, na hora de implementar estas mesmas polÃticas no paÃs, "não apresenta a mesma disposição".
"Nos últimos meses, o Brasil tem levado adiante uma ofensiva contra os direitos humanos, com a tramitação de mais de 130 projetos legislativos que estão atualmente no Congresso e que restringem direitos como o aborto, à liberdade de expressão e manifestação pacÃfica, perpetuam a impunidade por crimes cometidos pelos órgãos e forças de segurança, flexibilizam a legislação de acesso a armas, reduzem a maioridade penal para 16 anos e diminuem os direitos dos povos indÃgenas e das comunidades quilombolas a suas terras", apontou.
"Nas Nações Unidas, o Brasil tem apoiado recomendações para investigar homicÃdios cometidos pela polÃcia e prevenir os abusos dos membros das forças de segurança, mas o número de pessoas mortas durante operações policiais - em sua maioria jovens negros que vivem nas favelas - tem aumentado nos últimos anos.", assegura Renata Neder, coordenadora de pesquisa, polÃticas e advocacy da Anistia Internacional.
Enquanto o Brasil vem apoiando nas Nações Unidas recomendações para acabar com a violência contra os povos indÃgenas e quilombolas, o governo está promovendo mudanças legislativas que eliminariam o direito à terra destes mesmos grupos.
"Em termos gerais, a Anistia Internacional pede coerência ao Brasil e que aplique em suas polÃticas internas todas as recomendações que aceita no exterior. Só assim poderá avançar na proteção e na promoção dos direitos humanos", conclui Renata Neder.
Fonte: Estadão Conteúdo