14/05/2019 12h10
'Não me sinto seguro em voltar' diz pesquisador que faz doutorado na Alemanha
Matéria do jornal O Estado de S. Paulo desta terça-feira, 14, mostra que os sucessivos cortes no orçamento das principais agências brasileiras de financiamento da ciência nos últimos anos obrigou muitos pesquisadores a levarem seus estudos para o exterior.
É o caso de Ruan Macêdo, de 28 anos, que faz doutorado na Alemanha. "Meu sonho era contribuir com a ciência e poder dizer que minhas descobertas foram feitas em casa, no meu PaÃs. Infelizmente, alcançar esse objetivo fica cada vez mais difÃcil. É impossÃvel manter a competitividade e inovar sem o apoio necessário", disse.
"Ainda quando estava na graduação em Educação FÃsica, descobri minha vocação para a pesquisa. Iniciei um estudo sobre o efeito terapêutico do exercÃcio fÃsico em mulheres pós-menopausa. Mas, logo depois de me formar, já senti o primeiro obstáculo: a falta de incentivo à ciência no Brasil, já que não havia pós-graduação nessa área no meu Estado, o PiauÃ", contou.
"Eu me mudei para Minas para fazer o mestrado em Fisiologia. Nesse perÃodo, minha avó foi diagnosticada com Alzheimer e isso me motivou a mudar minha linha de pesquisa. Fui aprovado no doutorado da USP para estudar um tratamento para a doença com uma vitamina sinteticamente modificada. Como havia limitações para algumas análises, surgiu a oportunidade de vir para a Alemanha, com bolsa de estudos da Capes".
"O contrato prevê que eu fique um ano e meio aqui e mais o mesmo perÃodo no Brasil. Mas, com esse cenário atual e a desvalorização da ciência, não me sinto seguro em voltar", disse Macedo. "Eu quero muito voltar ao meu PaÃs e retribuir o investimento, mas não tenho garantia nem mesmo de ter bolsa para terminar o doutorado, quanto mais opção de trabalho depois que concluir".
"Meu orientador na Alemanha vem acompanhando de perto as notÃcias do Brasil e tem se preparado para o pior. Não tenho certeza se terei a bolsa até o fim do meu perÃodo aqui, e ele está tentando garantir junto à s agências de fomento, que financiam sua pesquisa, uma verba que me permita ficar ao menos o tempo prometido. Concomitante a isso, busco ofertas de vaga de pós-doutorado. Algumas ofertas permitem começar antes de finalizar o doutorado, o que seria o meu caso", afirmou.
"Caso consiga alguma oferta aqui na Alemanha, cogito a possibilidade de devolver o dinheiro à Capes para não precisar voltar ao Brasil. A situação me entristece. Vejo a estrutura de primeiro mundo e percebo como estamos longe disso. É triste que tenhamos tanto potencial e tenhamos de abandonar nosso PaÃs para conseguir explorá-lo. Me sinto perdido, com medo. Não é fácil decidir abandonar seu paÃs em uma espécie de exÃlio cientÃfico, tive de me mudar para seguir a carreira para a qual me preparei por anos", concluiu o pesquisador. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo