29/11/2021 18h10
Nova variante pode infectar mais e matar menos, dizem especialistas
A grande quantidade de mutações da Ômicron é fato inusitado que precisa ser investigado no Brasil, dizem cientistas ouvidos pelo Estadão. Descoberta na Ãfrica do Sul, a nova variante do coronavÃrus apresenta 50 mutações. Cerca de 30 estão localizadas na chamada proteÃna spike, aquela que permite a entrada do vÃrus nas células humanas e é um dos principais alvos das vacinas contra a covid-19.
Uma primeira hipótese para a ocorrência de tantas mutações (três vezes mais do que o verificado na variante Delta) é a de que ela tenha se desenvolvido em um paciente imunodeprimido que abrigou a variante Alpha por muito tempo na Ãfrica do Sul. Os testes detectam a Ômicron por ela não ter um gene especÃfico - o mesmo da Alpha, segundo especialistas internacionais. "Nunca tÃnhamos visto uma variante com tantas mutações", diz o professor Amilcar Tanuri, coordenador do Laboratório de Virologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Tanuri diz ser adepto da hipótese de que os vÃrus emergentes tendem a se atenuar, conforme vão se espalhando pela população humana. A cada mutação, a tendência é a de que fiquem mais transmissÃveis e menos letais.
Gravidade
Os primeiros relatos dos médicos da Ãfrica do Sul indicam que o vÃrus se espalha rapidamente, mas sem grande número de casos graves. "Essa observação na Ãfrica do Sul ainda é empÃrica, mas corrobora a hipótese de atenuação do vÃrus e aumento da transmissibilidade", afirma o coordenador da UFRJ.
"No Brasil, ainda não tivemos acesso à variante Ômicron para estudá-la", diz Tanuri. "Assim que ela for detectada no PaÃs, a primeira coisa a ser feita é isolar o vÃrus e colocar em contato com o soro de pacientes vacinados aqui no Brasil e também infectados com a variante Delta", afirma o virologista. Dessa forma, será possÃvel saber se ter superado outros coronavÃrus confere alguma imunidade (proteção cruzada) contra a Ômicron.
A segunda pergunta que precisará ser respondida é como a nova variante vai se comportar. Ou seja: se ela vai substituir a Delta no Brasil, como parece estar fazendo na Ãfrica. Como o vÃrus consegue ser transmitido com uma velocidade maior que o concorrente, ele vence a disputa. O anterior continua circulando, mas em menor proporção. Vale lembrar que a Delta acabou não causando um aumento de casos no Brasil - conforme muitos especialistas, por causa de uma combinação de vacinação e medidas sanitárias.
Persistência
Segundo Tanuri, vários grupos publicaram o sequenciamento de vÃrus encontrados em pessoas que tiveram infecção persistente ou prolongada com as variantes anteriores. Em um estudo realizado na UFRJ com duas dezenas desses pacientes, os pesquisadores observaram que o acúmulo de mutações na proteÃna spike é proporcional ao tempo em que o vÃrus permanece no indivÃduo.
Para o epidemiologia Cesar Victora, professor emérito da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), os relatos dos médicos da Ãfrica do Sul podem ser um sinal de que o coronavÃrus está evoluindo como muitos outros vÃrus que são muito agressivos no inÃcio, mas se tornam atenuados com o tempo. "Pode ser que isso esteja acontecendo, o que seria uma boa notÃcia, mas ainda é cedo para saber", afirma.
Futuro
O especialista considera que o PaÃs precisa ampliar seu sistema de monitoramento de variantes. "Temos de aumentar a capacidade. Ainda sequenciamos pouco. A variante pode já estar aqui e ainda não ter sido descoberta", afirma o coordenador do comitê cientÃfico do Instituto Todos Pela Saúde.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo