15/02/2021 17h56
Outras vacinas se beneficiaram de pesquisas prévias contra vírus da Sars e Ebola
Não foram apenas as vacinas de RNA mensageiro que tiveram seu desenvolvimento acelerado por pesquisas prévias, feitas anos antes do primeiro caso de covid-19. Outros imunizantes com eficácia já anunciada ou que estão na fase final dos testes clÃnicos foram beneficiados por estudos iniciados para outros fins.
"Como já tÃnhamos tido outros dois surtos de coronavÃrus no mundo, o de Sars (SÃndrome Respiratória Aguda Grave), em 2002, e o de Mers (SÃndrome Respiratória do Oriente Médio), em 2012, isso permitiu que fossem feitas pesquisas na área que adiantaram algumas descobertas, como a de qual proteÃna é responsável por se ligar ao receptor da célula humana. Isso é fundamental para descobrir a forma de neutralizar o vÃrus", explica Jorge Kalil, professor titular da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor).
A vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica AstraZeneca - que no Brasil será produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) - usa uma tecnologia criada para responder a outras doenças que assustaram o mundo: MERS e ebola. Trata-se da plataforma de vetor viral, quando um outro vÃrus, com menor potencial de causar doença, é usado como vetor para levar o material genético do novo coronavÃrus para dentro das células humanas, passando as instruções para produção de uma proteÃna que vai provocar a resposta imune.
A mesma técnica é usada na vacina Sputnik V, desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, da Rússia. Em ambos os casos, o vetor é o adenovÃrus, causador de resfriado comum.
Os testes de uma vacina contra a Mers utilizando essa plataforma já haviam sido iniciados anos atrás pelos pesquisadores de Oxford, mas não foram finalizados porque o vÃrus praticamente desapareceu, tornando difÃcil, portanto, a comprovação da eficácia.
"Como a Mers é causada por um coronavÃrus, foi muito fácil aproveitar a plataforma e inserir o SARS-CoV-2 (causador da covid-19) nessa plataforma para se chegar à vacina. Muitos estudos de fase pré-clÃnica já estavam feitos", explica Sue Ann Costa Clemens, coordenadora dos centros de pesquisa da vacina de Oxford no Brasil e diretora do Instituto para a Saúde Global da Universidade de Siena.
A Coronavac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantã, foi colocada rapidamente em testes com humanos também graças a estudos prévios feitos pela companhia asiática de um imunizante contra o coronavÃrus causador da Sars. Na época do surto, entre 2002 e 2003, a companhia chegou a realizar a fase 1 de testes clÃnicos do imunizante, o que acelerou as pesquisas de uma vacina contra a covid-19.
Investimento
Além das pesquisas prévias, foi fundamental no processo um investimento pesado nas pesquisas de covid-19 e em estudos anteriores que já previam o surgimento de novas doenças.
Uma das iniciativas foi a criação, em 2017, da Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (Cepi). A organização, criada por governos, fundações e empresas, tem como objetivo financiar pesquisas para novos patógenos que podem representar uma ameaça global. No caso da covid-19, já foi investido US$ 1,1 bilhão para o financiamento de pesquisas de dez vacinas. "Esse investimento foi crucial porque pesquisa custa caro", diz Sue Ann. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo