22/11/2019 15h20
Pediatras criticam guia alimentar para crianças feito pelo Ministério da Saúde
Bebês a partir de nove meses que não são alimentados com leite materno podem tomar leite de vaca ou somente fórmulas infantis? A discussão ganhou corpo depois de o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos, do Ministério da Saúde, abrir uma brecha para o uso de leite de vaca a partir desta faixa etária.
Lançado semana passada, o documento diz ser possÃvel substituir a fórmula infantil por leite materno, a partir de 9 meses, caso os bebês já não recebam o aleitamento materno e seja difÃcil o uso de fórmulas.
A orientação provocou uma reação imediata da Sociedade Brasileira de Pediatria. Na quinta-feira, 21, a entidade encaminhou para o Ministério da Saúde um comunicado questionando e pedindo mudanças no guia, sob o argumento de que o leite de vaca na dieta dos bebês nesta idade pode causar complicações, comprometer o crescimento e o desenvolvimento.
"O documento traz recomendações muito importantes sobre o aleitamento materno, é muito bem feito", afirma VirgÃnia Weffort, da Sociedade Brasileira de Pediatria. "Mas, ao mesmo tempo, inclui orientações sobre o uso de leite de vaca que não concordamos."
VirgÃnia afirma que o leite de vaca tem altos teores de proteÃnas e sua ingestão em bebês compromete o metabolismo, aumenta o risco de obesidade e sobrecarrega os rins. Para a sociedade, o essencial seria que bebês que não podem receber aleitamento materno exclusivo tivessem acesso a fórmulas infantis.
Diretora do Departamento de Promoção À Saúde do Ministério da Saúde, LÃvia Salles afirma que o documento lançado semana passada pela pasta é fruto de mais de dois anos de discussão e que, em nenhum momento, recomenda o uso do leite de vaca como primeira opção. "A cartilha foi feita para contribuir com o desenvolvimento de estratégias que promovam uma dieta saudável e equilibrada. Mas ela deve ser feita de acordo com a realidade do PaÃs", argumenta.
LÃvia conta que pesquisas realizadas mostram que 60% dos bebês brasileiros com menos de seis meses e 74% dos bebês maiores de seis meses já tomam leite de vaca. Isso se deve, sobretudo ao alto preço das fórmulas infantis. Nem todas as famÃlias do PaÃs conseguem arcar com o custo deste tipo de alimentação e acabam, portanto, mesmo sem recomendação médica, recorrendo ao leite de vaca.
Ela diz que, diante dessa realidade, a equipe de consultores procurou deixar claro no manual as melhores formas do uso do leite de vaca, quando fórmulas infantis ou o aleitamento não podem ser realizados. Nos casos de bebês a partir de quatro meses, o leite tem de ser diluÃdo em água. Para maiores de 9 meses, o produto pode ser incluÃdo na alimentação, mas dentro de um cardápio equilibrado.
LÃvia argumenta que o Brasil não está sozinho na recomendação do uso de leite de vaca. O guia alimentar do Canadá e o da Suécia já trazem essa possibilidade, a partir dos nove meses.
"E, naqueles paÃses, a decisão não é norteada em função do preço", observa a diretora da Ministério da Saúde.
Ela afirma que a pasta não cogita fazer alterações no guia, em função das crÃticas feitas pela sociedade de pediatria. Acrescenta ainda o argumento de que a Organização Mundial da Saúde recomenda que todos as cartilhas feitas por organismos públicos têm de levar em consideração a realidade do PaÃs.
A nutricionista do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) Ana Paula Bortoletto Martins avalia que o leite de vaca, de fato, não é a primeira opção para se incluir na dieta de bebês. "Entendo as queixas feitas pela Sociedade Brasileira de Pediatria, mas o documento do ministério também deixa claro que a prioridade é o aleitamento materno exclusivo. E que fórmulas viriam em segundo lugar", completa.
Alerta
Ana Paula, contudo, chama atenção para outro risco quando não se dá alternativa para famÃlias: o uso inadvertido de compostos lácteos como se fossem fórmulas infantis. Esses compostos estão dispostos nas prateleiras de farmácias e supermercados ao lado de fórmulas infantis. As embalagens são muito parecidas, mas o preço é muito menor. "Muitas famÃlias, sem informação adequada, acabam se valendo destes preparados, na ilusão de que estão comprando o melhor para seus filhos. Como se fosse uma fórmula, mas mais barata", diz.
Tais compostos, embora sejam muito mais baratos, levam em sua composição 51% de leite. Trazem ainda uma boa porção de açúcares e são enriquecidos com alguns vitaminas. "Eles estão longe de ser um alimento adequado para bebês e crianças", diz Ana Paula.
Esses compostos, por terem registro no Ministério da Agricultura, não são ainda sujeitos às regras que controlam a publicidade. E justamente por isso, muitas vezes trazem brindes, ou promoções de descontos. O guia faz um alerta para esses compostos, mostrando que eles estão longe de ser um substituto para fórmulas infantis.
Além das crÃticas à s referências ao leite de vaca, VirgÃnia conta que a sociedade discorda das recomendações feitas a formulação de papinhas para bebês. O guia permite o uso moderado de sal nestas refeições. A pediatra afirma, no entanto, que o ideal seria que nenhum sal fosse adicionado à dieta até um ano de idade. "Recomendamos o uso moderado, estudos mostram não haver prejuÃzo com essa prática", afirma Salles.
Fonte: Estadão Conteúdo