05/07/2021 12h00
PF mira grupo por desvios de R$ 1,5 bilhão em criptomoedas de 7 mil vítimas
A PolÃcia Federal deflagrou na manhã desta segunda-feira, 5, a Operação Daemon para investigar um grupo ligado a três corretoras de criptomoedas sob suspeita de ter operado 'um verdadeiro esquema de pirâmide financeira' e desviado R$ 1,5 bilhão - valor devido a 7 mil credores no âmbito de processo de recuperação judicial. A ofensiva investiga supostos crimes de estelionato, lavagem de capitais, organização criminosa, além de delitos contra a economia popular e o sistema financeiro nacional.
Um efetivo de 90 policiais federais cumprem cinco mandados de prisão - um de prisão preventiva e quatro de prisão temporária - e vasculham 22 endereços em Curitiba e na região metropolitana da capital paranaense. As ordens foram expedidas pela 23ª Vara Federal de Curitiba (PR), que ainda decretou o sequestro de imóveis e bloqueio de valores de investigados.
De acordo com a PF, foram presos na ofensiva o suposto lÃder do grupo, sua esposa, uma 'companheira' que teria atuado como sua laranja, seu 'funcionário de confiança' e ainda uma pessoa que teria ajudado a dilapidar o patrimônio do investigado. A corporação indicou que durante as diligências foram apreendidos veÃculos avaliados em cerca de R$ 2,5 milhões, além de joias, relógios e valores em espécie.
As apurações que culminaram na Operação Daemon tiveram inÃcio em 2019, pela PolÃcia Civil do Paraná, em razão de denúncias de vÃtimas. Naquele ano, o grupo empresarial sob suspeita bloqueou todos os saques de valores das plataformas das corretoras, sob a alegação de ter sido vÃtima de um ataque hacker. Os administradores prometeram aos clientes o ressarcimento dos valores depositados, mas tais débitos não foram quitados.
As alegações dos investigados sobre o ataque hacker chegaram a ser alvo de apuração da PolÃcia Civil, mas os investigadores apontaram que, na verdade, havia indÃcios de que os donos das corretoras de criptomoedas teriam praticado crimes de estelionato, quadrilha e contra a economia popular. Após o desfecho de tal investigação, o grupo sob suspeita obteve um pedido de recuperação judicial, diz a PF.
Já em 2020, foi identificado que o grupo oferecia ao público contratos de investimento coletivo sem registro junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e assim as investigações foram deslocadas para a PF. A partir de tal momento a corporação passou a apurar possÃvel prática de crime contra o sistema financeiro nacional , sendo que com o aprofundamento das investigações, os investigadores dizem ter observado que o 'grupo empresarial teria operado um verdadeiro esquema de pirâmide financeira'.
"Os investigados apostavam na promoção da imagem de sucesso do grupo, com exibição de posses e bens de luxo e realização de grandes eventos. No entanto, da maneira ardilosa, os valores ingressos nas plataformas virtuais das corretoras do grupo (tanto por transferência de criptomoedas, quanto por depósitos bancários), eram em grande parte desviados em benefÃcio próprio do lÃder do conglomerado empresarial, de sua esposa e de outros investigados", explicou a PF em nota.
De acordo com a corporação, as investigações apontam ainda que o o lÃder do grupo empresarial sob suspeita já havia sido condenado na SuÃça pelos crimes de estelionato e falsificação de documentos.
Os investigadores também descobriram supostas fraudes no mecanismo criado pela área de TI das corretoras para que os clientes movimentassem valores. "Ao consultar as plataformas virtuais das corretoras, os clientes acompanhavam uma suposta posição de seus investimentos que, desde o momento em que ingressavam nas contas das empresas, eram empregados de maneira indevida para o enriquecimento dos gestores. Desta forma, os clientes acreditavam que estavam realizando operações nas corretoras e obtendo lucros diários e garantidos, suspeitando das irregularidades somente em 2019, após o bloqueio dos saques", explicou a corporação.
No âmbito da recuperação judicial, foram verificados 'diversos indÃcios da prática permanente' de crimes falimentares - fraudes que podem gerar prejuÃzo aos credores recuperanda.
Para justificar o pedido de recuperação, o lÃder do grupo investigado alegou à Justiça que tinha cerca de 7 mil bitcoins, o que seria suficiente para quitar de todas as dÃvidas decorrentes dos bloqueios de saques dos clientes. No entanto, os investigadores apontam que o lÃder do grupo teria usado 'nova e complexa realidade das negociações virtuais com criptomoedas para ludibriar o administrador judicial e o próprio JuÃzo Falimentar, apresentando como garantia uma carteira com bitcoins que nunca foram de sua propriedade'.
De acordo com a PF, o nome da operação, Daemon, faz referência à mitologia grega, 'a um ser sobrenatural trabalhando em plano de fundo', e à computação, 'a um programa que executa um processo em plano de fundo que não está sob controle direito do usuário interativo'.
"As referências encontram correspondência no modus operandi dos investigados, que desenvolveram diversos artifÃcios para induzir as vÃtimas em erro, inclusive com a criação de ferramenta de registro de transações de criptoativos que, em plano de fundo, permitia o desvio dos recursos e enriquecimento ilÃcito dos investigados", explicou a corporação em nota.
Fonte: Estadão Conteúdo