01/11/2021 20h50
População se despede das nove vítimas da tragédia em caverna no interior SP
Lágrimas, toque de silêncio, palmas. Essas foram algumas das formas como familiares, amigos e a população batataense homenageou seis das nove vÃtimas da tragédia na gruta Duas Bocas, em Altinópolis, que foram veladas no Ginásio de Esportes Marinheirão, na entrada de Batatais, a 355 km de São Paulo. Os outros três mortos foram velados nos municÃpios de Altinópolis, Sales Oliveira e Monte Santo, em Minas Gerais. Dois sobreviventes, de Franca e de Batatais, continuam internados. Outras cinco pessoas que precisaram de atendimento tiveram alta.
O acidente ocorreu no inÃcio da madrugada de domingo, 31, quando o grupo com 28 bombeiros civis fazia um treinamento dentro da gruta e houve um desmoronamento. Segundo o Tenente Veneziani, da Defesa Civil Estadual, que participou das buscas na gruta, 18 pessoas conseguiram sair e foram pedir ajuda para o restante do grupo.
"Ao chegar no local, o bombeiro conseguiu socorrer uma pessoa com ferimentos leves. Depois foram nove óbitos. As vÃtimas foram sendo localizadas aos poucos, ao decorrer do dia, após a escavação e a remoção da terra", afirmou.
O tenente reforça que foi um trabalho demorado e perigoso, com condições climáticas ruins, que se mantiveram desde a noite de sábado e ao longo do domingo. Segundo ele, havia risco de novos desmoronamentos, mas as equipes trabalharam até o fim com a esperança de que pudesse haver mais alguém vivo.
"O local era de difÃcil acesso, com mais de meia hora de caminhada até o posto de comando", lembra. Um helicóptero foi usado para apoio à operação.
O velório coletivo em Batatais, depois de duas horas restrito a familiares, à s 10h30, foi aberto à população. Uma celebração ecumênica e mais duas salvas de palmas marcaram o fim do velório, antes dos enterros. Às 15h03, os caixões passaram a ser retirados um a um, sob forte comoção e novos aplausos. Equipes de enfermagem e psicologia prestaram apoio a alguns amigos e familiares das vÃtimas.
Ao longo do dia, centenas de pessoas passaram para prestar homenagem. Entre os que permaneceram a maior parte do tempo, várias crianças e adolescentes usando macacão ou a camiseta vermelha dos bombeiros civis. Em alguns momentos, emocionados, integrantes do grupo se abraçavam para se ampararem. No final da manhã, eles ficaram perfilados para uma homenagem coletiva à s vÃtimas.
Entre os mortos estão instrutores e outros membros da escola de formação de bombeiro civil. No sábado, 30, durante o dia, antes de irem para o treinamento na caverna, parte da equipe que morreu havia dado aula de formação para crianças que fazem cursos de primeiros socorros na entidade.
Além de atuarem como bombeiros voluntários, a maior parte dos integrantes do grupo tem outras profissões. Os alunos já faziam ensaios para a formatura, que possivelmente ocorreria em dezembro no mesmo ginásio que recebeu o funeral.
A dona de casa Márcia Regina de Souza dos Santos, 47, conta que sua filha, que nesta manhã prestava homenagem a seus instrutores, é aluna da escola de formação de bombeiros. Márcia destaca que a escola foi significativa para aumentar a autoestima da filha e que a adolescente já pôs em prática lições aprendidas com o grupo.
"Em abril, engasguei com frango e já estava perdido o sentido. Consegui bater no ombro do meu marido e falar o nome dela. Ela veio, viu que era um engasgo e (com manobra aprendida no curso) conseguiu reverter", relata.
O comandante geral de operações dos Bombeiros Unidos sem Fronteiras no Brasil, BolÃvar Fundão Filho, participou da homenagem à s vÃtimas. "Conheço todos. São todas a minha equipe", definiu. "A escola Royal Life marcou um treinamento em resgate em caverna e ofereceu algumas vagas para o nosso pessoal. Na hora em que ruiu a estrutura, os dez nossos ficaram. Um saiu com vida, os outros nove estão aÃ. Seis aqui e três nas cidades vizinhas", explicou.
BolÃvar destacou que a sub delegacia de Batatais é uma referência para a organização no Brasil e recebe pessoas de outras regiões para treinar. "É a maior tragédia nossa, em um dia só perder nove membros. Perder nove membros fazendo resgate seria uma coisa, perder treinando para salvar é totalmente diferente", destacou.
BolÃvar defendeu o tipo de treinamento que era realizado. "Quem faz resgate deve se preparar para qualquer situação de emergência. Caverna é um lugar confinado. Dependendo da cidade em que eles atuam, são eles a primeira resposta. Nós temos no Brasil mais de 5400 municÃpios e só 18% têm a presença de bombeiros militares. Então existe uma lacuna, um vácuo muito grande. Nessas cidades em que não há bombeiros militares, a primeira resposta é bombeiro civil", disse.
BolÃvar explicou que essa caverna já era usada para treinamento há quase uma década. "Desastres como esse acontecem em cavernas justamente como essa. Se você não treinar o mais próximo da realidade, como você vai saber agir? Uma série de fatores que infelizmente foram somados e aconteceu essa tragédia", observou.
O representante destacou que todos atuaram nos grandes incêndios que atingiram a zona rural do municÃpio na seca recente. "O próprio Celso, que era o comandante aqui, já salvou várias pessoas", menciona. O comandante Celso namorava Ana (velada em Sales Oliveira), que estava indo em seu primeiro treinamento. Também eram casal, o Cândido e a professora Elaine.
Presente no velório, o coronel Romanek, coordenador da defesa civil do Estado de São Paulo, relatou que as condições dificultaram o resgate. Foi feito um processo técnico de busca de informações sobre o local, conseguindo um mapa da gruta. Um geólogo integrou a equipe confirmando que era uma gruta seca sem risco de afogamento.
"O local é de difÃcil acesso, tivemos problemas de comunicação. Fizemos uma rede emergencial com radioamadores que são cadastrados na defesa civil estadual para a gente poder ter comunicação", afirmou. Esses voluntários viabilizarmos sinais de transmissão por rádio que permitiram a comunicação das equipes no local. Corpo de bombeiros, defesa civil, polÃcia militar e SAMU integraram as equipes que se mobilizaram para o resgate no domingo, 31.
Nesta segunda-feira, 1º, a prefeitura de Altinópolis interditou o acesso à gruta em que ocorreu o acidente e reforçou que fica em uma propriedade particular, não fazendo parte do circuito turÃstico do municÃpio.
As prefeituras de Altinópolis e Batatais decretaram três dias de luto.
Seis vÃtimas do desabamento veladas no ginásio de Batatais:
Celso Galina Jr
José Cândido Messias da Silva
Elaine Cristina de Carvalho
Rodrigo Triffoni Calegari
Jonatas Ãtalo Lopes
Jenifer Caroline da Silva.
Outras 3 vÃtimas do desmoronamento:
Natan de Souza Martins, velado em Altinópolis
Ana Carla Costa Rodrigues de Barros, velada em Sales Oliveira
Débora Silva Ferreira, velada em Monte Santo de Minas
Fonte: Estadão Conteúdo