09/08/2018 22h10
Prefeitura de São Paulo pode tornar públicos e-mails de seus servidores
Pela primeira vez, a Prefeitura de São Paulo estuda tornar públicos os e-mails internos de seus servidores. O anteprojeto da nova PolÃtica Municipal de Transparência e Dados Abertos do governo municipal, divulgado neste ano, prevê a publicidade das mensagens eletrônicas trocadas pelos servidores, perante termos a serem definidos pelo governo municipal. Todos os órgãos municipais, inclusive da administração direta, deverão obedecer à s novas diretrizes. Há grande resistência por parte de todos os órgãos públicos no PaÃs em divulgar este tipo de informação.
Ainda sem uma legislação especÃfica, o acesso a e-mails de servidores públicos vinha sendo vetado pelo governo municipal nos últimos meses. A discussão sobre o tema ganhou força depois da reportagem do jornal O Estado de S. Paulo tentar, sem sucesso, obter cópia das correspondências eletrônicas de diversos servidores públicos municipais, no fim de 2017. Em todos os casos, o governo alegou que não poderia informá-los, por razões diversas - sigilo nas mensagens, excesso de trabalho para ler todos os e-mails, entre outros.
A partir das solicitações da reportagem, todas feitas por meio da Lei de Acesso à Informação, o governo reagiu, produzindo dois pareceres jurÃdicos contrários a divulgação desses dados - um feito pela Controladoria Geral do MunicÃpio e outro, pela Procuradoria Geral do MunicÃpio (PGM). O mais recente foi produzido depois de a reportagem solicitar acesso a alguns e-mails da presidência de um órgão municipal.
"Não há dúvida de que, na falta de um regime claro a respeito, previamente definido, as informações privadas contidas em contas de correio eletrônico públicas devem ser consideradas como sujeitas ao sigilo de correspondência, nos termos da Constituição da República", diz o parecer, assinado pela procuradora geral substituta Luciana Santana Nardi.
O mesmo parecer, no entanto, reconhece a possibilidade de "regular tais caixas de correio para que as informações pudessem ser divulgadas indiscriminadamente, o que exigiria a criação de um regulamento de uso e a cientificação prévia do usuário de que todas as mensagens ali trocadas serão disponibilizadas para o acesso de todos."
Recuo
O texto final do anteprojeto foi alterado para tornar mais rigorosa a liberação dos e-mails. No primeiro texto, divulgado no ano passado, o artigo 50 apontava que "e-mails de circulação interna enviados e recebidos por meio de endereço de correio eletrônico institucional poderão ser acessados via solicitação de informações". Agora, a legislação em estudo prevê que a publicidade "será objeto de análise através dos respectivos Planos Setoriais de Transparência e Dados Abertos" - cada órgão público terá o seu, e o próprio órgão ser responsável por elaborá-lo.
O entendimento jurÃdico do governo federal atual sobre transparência de e-mails de servidores já foi na direção oposta ao apontado pela Prefeitura no documento, em alguns casos. O Ministério da Transparência, Fiscalização e a Controladoria-Geral da União (CGU) tem entendido, em parte de seus pareceres, que não pode haver um sigilo automático sobre o e-mail e que o sigilo constitucional das comunicações não se aplica a correspondência dos servidores públicos, "já que a garantia fundamental protege o cidadão do Estado, e não o contrário", segundo aponta o ouvidor-geral da União Gilberto Waller Junior, em parecer deste ano. A recomendação do ministério e que seja analisado caso a caso, para identificar se existe ou não informação sigilosa dentro de cada um dos e-mails. Na prática, no entanto, praticamente todos os pedidos de informação por esses dados são negados.
Documentos pessoais
O anteprojeto do governo municipal também estabelece diretrizes mais claras sobre a possibilidade de divulgação de documentos que possam conter dados pessoais. O projeto aponta que fica "vedada a disponibilização a terceiros de dados e informações pessoais coletadas por entidades parceiras de qualquer órgão ou entidade municipal, incluindo a sua comercialização", mas exclui do sigilo a disponibilização de informações relacionadas diretamente ao exercÃcio da função pública - como reclamações no serviço 156, por exemplo. Neste caso, a Prefeitura estabeleceu que aplicará mecanismos de tornar anônimos os envolvidos, por meio de supressão de campos, linhas, colunas ou outros dados que possam revelar a identidade das pessoas envolvidas.
Nos EUA, e-mails públicos são alvo constante de reportagens
A lei de acesso à informação americana, chamada de Freedom of Information Act, permite que qualquer cidadão solicite dados públicos, inclusive do e-mail interno de servidores. A única exigência é a de que o pedido seja delimitado em um curto perÃodo de tempo, para que todos esses e-mails possam ser lidos e, se houver dados pessoais ou sigilosos, estes sejam retirados das mensagens antes de serem tornadas públicas.
O acesso a essas correspondência já gerou uma série de polêmicas na administração federal. No ano passado, o site The Intercept revelou que servidores da Immigration and Customs Enforcement (ICE), a fiscalização de imigração americana, fazia uma busca ativa por exemplos de imigrantes criminosos para "preencher" o discurso anti-imigração do presidente Trump. Isso só foi possÃvel porque o e-mail desses servidores foi tornado público por meio de pedidos de informação feitos pelos jornalistas.
Veja nota da Prefeitura de São Paulo
"A Controladoria Geral do MunicÃpio informa que a nova polÃtica de transparência está sendo tratada de forma participativa e aberta. Um exemplo são todos os pareceres e notas que constam no Portal da Transparência. O anteprojeto não tem previsão de passar pela Câmara, pois está sendo estudado como decreto.
A definição sobre o acesso aos e-mails funcionais, como destacado no Artigo 52, será precedida da elaboração dos Termos de Uso e do planejamento a ser incluÃdo no Plano Setorial de Transparência e Dados Abertos. Os pedidos anteriores mencionados foram negados porque ainda não existe essa previsão.
Cabe destacar que as atas completas de todas as reuniões do Conselho Municipal de Acesso à Informação são publicadas no Portal da Transparência."
Fonte: Estadão Conteúdo