08/11/2019 17h20
Produção de lixo no Brasil cresce mais que capacidade para lidar com resíduos
A produção de lixo no Brasil tem avançado em ritmo mais rápido do que a infraestrutura para lidar de maneira adequada com esse resÃduo. É o que mostra uma análise do Panorama dos ResÃduos Sólidos no Brasil 2018/2019, lançado nesta sexta-feira, 8, pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e ResÃduos Especiais (Abrelpe) e obtido com exclusividade pelo jornal O Estado de S. Paulo.
Em 2018, o Brasil produziu, em média, 79 milhões de toneladas de lixo, uma variação de pouco menos de 1% em relação ao ano anterior. Comparado com paÃses da América Latina, é o campeão de geração de lixo. E, conforme estimativas do relatório, a tendência de crescimento na produção de resÃduos deve ser mantida nos próximos anos - o PaÃs alcançará uma geração anual de 100 milhões de toneladas por volta de 2030.
Para Carlos Silva Filho, diretor presidente da Abrelpe, o tipo de material consumido atualmente, que é mais descartável, é o grande responsável por esse avanço da produção de lixo.
"Há um aumento do próprio consumo e do descarte indiscriminado. Não há uma separação dos resÃduos no descarte dentro de casa, não há um processo de sensibilização da população para consumir produtos mais sustentáveis", afirmou. "O Brasil ainda tem um processo de produção, consumo e descarte de resÃduos do século passado."
De todo o resÃduo produzido em 2018, 72,7 milhões de toneladas foram coletadas, uma alta de 1,66% em comparação com 2017, mas 6,3 milhões de toneladas de resÃduos nem sequer foram recolhidas junto aos locais de geração. Mesmo com uma melhora na cobertura da coleta, ainda há um contingente considerável de pessoas que não são alcançadas por serviços de coleta: um em cada 12 brasileiros não tem coleta regular de lixo na porta de casa.
Destino do lixo
Embora passados nove anos da vigência da PolÃtica Nacional de ResÃduos Sólidos, que trazia como meta que até agosto de 2014 o PaÃs deveria estar livre dos lixões, o setor ainda apresenta alguns déficits, principalmente em relação à destinação final dos resÃduos coletados, coleta seletiva e recuperação de materiais.
Dos resÃduos coletados, 59,5% receberam uma destinação adequada em aterros sanitários, enquanto o restante (40,5%) foi despejado em locais inadequados por mais de 3 mil municÃpios, seguindo para lixões ou aterros controlados, que não contam com medidas necessárias para proteger a saúde das pessoas e os danos ao meio ambiente.
Considerando paÃses com a mesma faixa de renda do brasileiro, o Brasil apresenta Ãndices bastante inferiores, pois a média para destinação adequada nessa faixa de paÃses é de 70%.
A coleta seletiva, segundo o panorama, também está distante de ser universalizada no PaÃs. Apesar de quase três quartos dos municÃpios brasileiros terem algum tipo de coleta seletiva, ela não abrange todos os bairros e os Ãndices de reciclagem são bastante incipientes e pouco evoluem.
"Enquanto o mundo fala em economia circular e avança na energia renovável a partir de resÃduo, nós ainda temos um déficit no Brasil de lixão a céu aberto em todas as regiões e pouca coleta seletiva na cidade", disse Silva Filho. "É preciso agilizar o investimento de infraestrutura adequada para receber esse resÃduo e tratar esse resÃduo como recurso. Aproveitá-lo melhor na reciclagem, geração de energia, transformação em matéria-prima e não simplesmente um material descartado que não tem serventia."
Falta de recursos
Essa estagnação ou retrocesso de alguns Ãndices é potencializada pela falta de recursos destinados para custeio dos serviços de limpeza urbana. Em 2018, os recursos registraram queda de 1,28% de investimentos, além da perda de quase 5 mil postos de trabalho direto/formal. Para a execução de todos os serviços de limpeza urbana foram aplicados pelos municÃpios apenas R$ 10,15 por habitante por mês, em média.
"A gestão de resÃduos no Brasil é de titularidade dos municÃpios. A grande maioria é pequena e não consegue fazer uma gestão de maneira isolada", apontou o presidente da Abrelpe. "Portanto, precisam buscar solução conjunta para esse tema, principalmente buscar uma fonte de remuneração contÃnua para que possam justamente não só ter infraestruturas necessárias, planta de reciclagem e unidade de aproveitamento energético, mas também para custear todo esse serviço que é feito diariamente."
O Ministério do Meio Ambiente foi procurado para comentar a produção de lixo no Brasil e a estagnação da infraestrutura para gestão adequada do lixo, mas não se pronunciou até a publicação desta reportagem.
Fonte: Estadão Conteúdo