04/01/2018 15h00
Professor indígena é morto a pauladas em SC; Cimi vê intolerância étnica
O Ãndio Marcondes Namblá Xokleng, de 38 anos, da etnia Laklãno-Xokleng, foi agredido a pauladas até a morte, na madrugada do último dia 1º, no balneário de Penha, litoral de Santa Catarina.
O indÃgena, que era professor formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), chegou a ser levado para um hospital, mas não resistiu. Uma câmera de monitoramento filmou a agressão, praticada por um homem que estava acompanhado por um cachorro. A PolÃcia Civil investiga a hipótese de crime motivado por ódio racial.
A Fundação Nacional do Ãndio (Funai) e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) acompanham as investigações. Para o Cimi, o crime tem relação com intolerância étnica.
Namblá fazia parte de um grupo de doze Ãndios da aldeia localizada na Terra IndÃgena Laklãno, no municÃpio de José Boiteux, que tinha ido até o litoral para vender sorvetes.
As imagens da câmera mostram o momento em que ele é abordado pelo homem portando um pedaço de madeira. Eles conversam rapidamente e, sem esboçar qualquer reação, o Ãndio recebe um golpe na cabeça. Ele se curva e volta a ser golpeado. Os golpes continuam mesmo com Marcondes caÃdo ao chão. Em seguida, o homem se afasta, mas ao perceber que o Ãndio está vivo e tenta se levantar, ele volta até o local e o golpeia novamente.
Pedestres encontraram o Ãndio caÃdo, por volta das 5 horas. Ele tinha um sangramento na cabeça e foi atendido pelo serviço de resgate do Corpo de Bombeiros. Levado a uma unidade de pronto-atendimento, em razão do estado grave, o indÃgena foi encaminhado para o Hospital Marieta Konder Bornhausen, em ItajaÃ. Ele morreu à s 20 horas de terça-feira,2.
O delegado Douglas Teixeira Barroco, da PolÃcia Civil de Piçarras, que investiga o caso, disse ter ficado chocado ao ver as imagens da câmera. "Ele foi massacrado sem piedade. Já temos a identidade do possÃvel agressor e esperamos encerrar a investigação a qualquer momento, inclusive para saber o motivo de um crime tão brutal", disse.
Casado e pai de cinco filhos, Marcondes ensinava a lÃngua indÃgena em sua aldeia, uma das oito da terra indÃgena. Ele era formado em Licenciatura Intercultural IndÃgena da Mata Atlântica e estava inscrito para fazer doutorado.
De acordo com uma parceira de trabalho, Janaina Hubner, o colega era evangélico e não bebia. Eles tinham vendido sorvetes durante o dia todo e, durante a noite, Marcondes saiu sozinho para ver a queima de fogos na orla, mas não retornou. No dia seguinte, os colegas descobriram que ele estava no hospital.
O grupo, que tinha alugado uma casa no balneário, pretendia ficar no litoral até o dia 10 para complementar a renda com a venda de sorvetes. O agente da Funai em José Boiteux, Jairo Pinto de Almeida, esteve na delegacia para acompanhar a investigação e informou que a Procuradoria Federal Especializada já recebeu todas as informações sobre o caso.
Intolerância
Em nota, o Cimi Regional Sul manifestou indignação com o assassinato do professor Marcondes e pediu agilidade nas investigações. "O Cimi Sul vem alertando, ao longo dos últimos anos, sobre a onda de intolerância contra indÃgenas no litoral de Santa Catarina, especialmente manifestada por autoridades municipais que não aceitam o fato de os indÃgenas frequentarem as praias."
No verão, segundo o Cimi, os indÃgenas se dirigem ao litoral para a exposição e comercialização de seus produtos, especialmente o artesanato. "Quando prefeitos, vereadores, secretários municipais e alguns meios de comunicação passam a veicular informação ou proferir discursos contra os indÃgenas, uma boa parcela da população se sente legitimada a agir contra os indÃgenas, tentando repeli-los da região", diz a nota.
O Conselho lembra que, em 30 de dezembro de 2016, o menino indÃgena Vitor Kaingang, então com dois anos de idade, acabou sendo degolado por um desconhecido, enquanto era alimentado pela mãe. "Passados dois anos, a vÃtima, dessa vez, foi um professor indÃgena morto a pauladas. No entender do Cimi, há sim uma conexão entre o crime de Imbituba e de Penha porque são consequências do contexto de intolerância étnica e anti-indÃgena. Cabe ao poder público dar exemplo e tentar, através das redes de justiça e do direito, extirpar essa tendência racista, homofóbica e xenofóbica que avança pelo paÃs, mas especialmente na Região Sul."
A assessoria de imprensa da prefeitura de Penha informou que colabora com a investigação do assassinato do indÃgena Marcondes Namblá Xokleng e que a possÃvel identificação do autor do crime deve acontecer com rapidez porque o municÃpio instalou câmeras de monitoramento para melhorar a segurança, o que possibilitou ter imagens do acontecido. Segundo a assessoria, os grupos indÃgenas são sempre bem recebidos na cidade, onde parte da população é descendente de açorianos, "com um pé na Ãfrica".
O municÃpio mantém campanhas nas escolas contra a intolerância étnica, que acontece, não apenas em Santa Catarina, mas em todo o Brasil. Segundo a assessoria, a cidade de pouco mais de 30 mil habitantes recebeu 150 mil turistas no fim do ano e há grande possibilidade de que o envolvido no crime não seja morador local.
Fonte: Estadão Conteúdo