22/02/2018 21h50
Projeto quer identificar vírus que possam causar a próxima pandemia
Um grupo internacional de cientistas lançará uma força-tarefa mundial com o objetivo de identificar novos vÃrus que poderão ameaçar a humanidade no futuro. O anúncio da iniciativa foi feito em um artigo publicado nesta quinta-feira, 22, na revista Science e assinado por 10 cientistas, incluindo o médico e biofÃsico brasileiro Carlos Morel, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e coordenador do Instituto Nacional de Inovação em Doenças Negligenciadas.
Os autores do artigo afirmam que o projeto permitirá acelerar o passo da descoberta de novos vÃrus em um ritmo sem precedentes, gerando um enorme volume de dados e tornando o combate a futuras pandemias mais efetivo, ao acelerar o desenvolvimento de vacinas, drogas e terapias.
De acordo com Morel, estima-se que cerca de 1,6 milhão de vÃrus que circulam no planeta ainda seja completamente desconhecidos pela ciência e que entre 600 mil e 800 mil deles sejam capazes de infectar humanos - e eventualmente causar epidemias.
"Há uma enorme defasagem entre nossa capacidade de descobrir vÃrus desconhecidos e a taxa de surgimento de novos vÃrus. Estamos sempre um passo atrás", disse Morel à reportagem.
O lançamento da iniciativa, batizada de Projeto Viroma Global, está previsto para o fim de 2018. Segundo Morel, o objetivo é identificar o maior número possÃvel de vÃrus e fornecer dados que sejam úteis para intervenções de saúde pública em futuras epidemias. De acordo com o pesquisador, o artigo na Science é um chamado para que a comunidade cientÃfica e a sociedade percebam a importância de se identificar os vÃrus desconhecidos.
"É fundamental conhecermos os candidatos a causar a próxima grande pandemia. Quando há uma epidemia e o vÃrus é totalmente desconhecido, temos que começar todos os estudos da estaca zero, perdendo um tempo precioso até que seja possÃvel desenvolver vacinas e terapias. Além disso, a evolução dos vÃrus é muito rápida e o tempo todo surgem novas ameaças", explicou Morel.
A SÃndrome Respiratória Aguda Severa (Sars, na sigla em inglês), que teve inÃcio na China em 2003 e se espalhou por todo o mundo, foi um exemplo de como é difÃcil criar formas de combate a surtos de vÃrus inicialmente desconhecidos. "A pandemia ocorreu há 15 anos e até hoje não temos uma vacina", disse Morel.
Segundo o cientista, assim como a Sars quase todas as pandemias registradas recentemente tiveram origens em animais e, por isso, o projeto terá foco nos vÃrus cujos vetores são mamÃferos e aves.
Há dois alvos principais para a busca de novos vÃrus, segundo Morel. Um deles está nos locais onda há muita biodiversidade, com grande quantidade de aves - que são notoriamente potenciais transmissores. O outro está nos locais populosos onde há um contato muito estreito entre pessoas e aves ou mamÃferos, como os mercados da China, por exemplo.
"Para explicar de forma simples, podemos dizer que os vÃrus como os da gripe têm o genoma partido em pedacinhos. Se houver dois vÃrus diferentes circulando juntos, um deles em humanos e outro em suÃnos, por exemplo, é possÃvel que esses pedacinhos se misturem, gerando um novo vÃrus", explicou Morel.
De acordo com Morel, a identificação de novos vÃrus é extremamente cara, porque é preciso treinar grandes equipes capazes de coletar amostras de vÃrus perigosos em diversas partes do mundo. Estima-se que a identificação de todos os 1,6 milhão de vÃrus previstos será preciso investir cerca de US$ 7 bilhões. No entanto, a taxa de descoberta de novos vÃrus é muito maior no inÃcio do processo de coleta de amostras e, por isso, com US$ 1,2 bilhão já seria possÃvel descobrir e avaliar os riscos de 71% dos vÃrus que infectam animais.
"O investimento é alto, mas temos que levar em conta que os custos de uma epidemia também são extremamente elevados. A epidemia de Sars, por exemplo, devastou a indústria do turismo no Canadá, resultando em prejuÃzos de milhões de dólares. Precisamos ter sempre em mente que é preciso investir para evitar uma epidemia que poderia causar prejuÃzos catastróficos, tanto do ponto de vista econômico como social e de saúde pública", disse o cientista.
De acordo com o artigo na Science, as questões relacionadas à gestão, operação técnica e governança do projeto já vêm sendo alinhavadas desde 2016 por diversos parceiros na Ãsia, Ãfrica, Europa e Américas, envolvendo a indústria, a academia, agências intergovernamentais, organizações não governamentais e o setor privado. O trabalho de campo para a "caça" aos vÃrus desconhecidos começará na China e na Tailândia, ainda neste ano.
"A natureza colaborativa internacional e o seu caráter global do projeto deverão ajudar no levantamento de fundos junto a diversos doadores internacionais, incluindo agências governamentais com foco em saúde e doadores filantrópicos com foco em tecnologia e ciência", informou o texto.
Além de Morel, os outros autores do artigo são Dennis Carroll, da Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos; Peter Daszak, da EcoHealth Alliance (Estados Unidos); Nathan Wolfe, da Metabiota (Estados Unidos); George Gao, do CDC China; Subhash Morzaria, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês); Ariel Pablos-Méndez, da Universidade Columbia (Estados Unidos); Oyewale Tomori, da Academia Nigeriana de Ciências; e Jonna Mazet, do Instituto One Health.
Fonte: Estadão Conteúdo