26/11/2019 13h20
Radiografia da Câmara aponta paralisia e ineficiência em programas do MEC
Uma radiografia realizada no Ministério da Educação por uma comissão da Câmara dos Deputados indicou paralisia tanto no planejamento quanto na execução de polÃticas públicas por parte da pasta comandada pelo ministro Abraham Weintraub, destaca o jornal O Estado de S. Paulo. Na lista dos problemas identificados estão desde a falta de ações concretas para o fomento da alfabetização até a alta rotatividade de funcionários comissionados. O MEC alega que programas serão lançados em breve e o descontingenciamento de recursos é recente.
É a primeira vez que um grupo assim é formado no Legislativo para averiguar o trabalho de um ministério. "O diagnóstico é assolador e mostra que a fragilidade do planejamento e da gestão do MEC afetou diretamente a formulação e a implementação das polÃticas educacionais", diz o relatório da comissão, com 265 páginas, obtido com exclusividade pelo jornal.
O grupo foi criado em abril pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a partir do requerimento de 50 deputados de 12 partidos diferentes - a maioria da oposição e do Centrão. O relator do trabalho é o deputado Felipe Rigoni (PSB-ES) e a coordenação está nas mãos da deputada Tabata Amaral (PDT-SP).
A comissão foi criada logo após Tabata protagonizar um áspero bate-boca com o professor Ricardo Vélez, o primeiro escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para comandar a pasta. Na ocasião, a deputada cobrou duramente o ministro. Dez dias depois, Vélez foi demitido e Weintraub assumiu o seu lugar.
Tabata e Rigoni são os mesmos escalados por Maia para elaborar o pacote de projetos na área social, antecipado pelo Estado no mês passado. O presidente da Câmara busca protagonismo na agenda social justamente no momento em que o governo Bolsonaro se prepara para enviar ao Congresso medidas amargas, desta vez com os pacotes fiscal e administrativo.
Na prática, o trabalho dos parlamentares mostrou que a PolÃtica Nacional de Alfabetização - única meta especÃfica do MEC nos primeiros cem dias de governo - não resultou, até o momento, na apresentação de um plano de ação detalhado. Desta forma, municÃpios e Estados ainda não sabem como nem quando a iniciativa chegará à s escolas e quais projetos e atividades terão prioridade.
Das ações mantidas pela pasta, o Programa Mais Alfabetização - do governo de Michel Temer - só teve o seu primeiro desembolso, de R$ 149,6 milhões, em setembro. Mesmo assim houve um impasse que atrasou em alguns dias a liberação, sob a justificativa de que teria ocorrido um erro no processo. O programa prevê apoio técnico e financeiro às unidades escolares para alfabetização.
Investimentos
Em um ano marcado pelo contingenciamento de recursos da Educação, mesmo os valores que não sofreram bloqueio tiveram baixo Ãndice de execução. Entre elas estão ações citadas como "apoio ao desenvolvimento da educação básica", com repasse próximo a zero até julho. No mesmo intervalo, apenas 4,4% da verba reservada para investimentos do MEC foi executada - o relatório assinala que o montante gasto acabou sendo de "menos da metade no mesmo perÃodo de 2018 (11,7%)". Em números absolutos foram R$ 184,06 milhões investidos em 2019, ante R$ 457,62 milhões em 2018.
"A baixa execução orçamentária em diversos programas denota a baixa capacidade de gerenciamento dos gestores responsáveis", aponta o relatório.
Rotatividade
Uma das razões para a lentidão no trabalho do MEC, segundo o relatório, é a alta rotatividade nos cargos comissionados. Nos nove primeiros meses, o tempo médio de permanência no mesmo setor foi de 112 dias. Em igual perÃodo da gestão Temer, por exemplo, a média foi de 150 dias. Além disso, houve redução no número de cargos de confiança ocupados por pessoas que já haviam atuado na área educacional, quando o número é comparado à s gestões Temer e Dilma.
Para fazer o diagnóstico, o grupo afirma ter usado informações do MEC, além de ter feito visitas técnicas e obtido dados no Portal da Transparência. A comissão diz ter pedido audiência com Weintraub para discutir a avaliação, mas o ministro teria ignorado. Procurado pela reportagem, o MEC informou que "lançará em breve programas e materiais sobre a PolÃtica Nacional de Alfabetização". "Quanto à execução orçamentária da pasta, é preciso esclarecer que o descontingenciamento total dos recursos só foi realizado há três dias. Mesmo assim, o MEC já empenhou mais de 80% dos gastos discricionários e trabalha para executar todo o orçamento."
Divisão
Única meta do Ministério da Educação (MEC) incluÃda no plano de cem dias de governo federal, a PolÃtica Nacional de Alfabetização (PNA) só estará completamente detalhada em abril de 2020, quando o presidente Jair Bolsonaro completa um terço de seu mandato. O programa divide especialistas, por dar ênfase ao método fônico de alfabetização - modelo de ensino que privilegia a associação entre letras e fonemas.
Para Anna Helena Altenfelder, do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), a PNA é "polêmica" e não dialoga com experiências bem-sucedidas em Estados e municÃpios nem com a produção acadêmica no PaÃs. Além disso, ela critica projetos "diversionistas" do MEC. "Causam polêmica, mas são pouco efetivos e não têm base empÃrica e teórica que se sustente", diz, citando como exemplo as escolas cÃvico-militares.
A área, segundo ela, tem urgências maiores, como aprovar o novo Fundeb, principal mecanismo de financiamento da educação básica, que vence em 2020 e tramita no Congresso.
Já a consultora em educação Ilona Becskehazy, que participou em agosto da Conferência Nacional de Alfabetização Baseada em Evidências (Conabe), painel de especialistas na área organizado pelo ministério, afirma que o decreto da PNA "é o melhor que já tivemos para tratar da alfabetização". Ela será responsável pela análise sobre currÃculos a ser considerada no Relatório Nacional de Alfabetização Baseada em Evidências do MEC, previsto para abril de 2020. "É preciso fazer o documento. É um instrumento legal que pautará outras ações."
A possibilidade de o relatório ser publicado após um ano e quatro meses de gestão é minimizada. "Temos 500 anos e chegamos a 2019 não alfabetizando nem a metade das crianças até o 3.º ano (do fundamental)."
Para ela, "da noite para o dia" não dá para resolver tudo. "Até porque o governo federal não tem escola. Pode, no máximo, induzir Estados e municÃpios a proceder de outras formas por uma série de mecanismos. O mais poderoso deles, o livro didático, o MEC não pode mexer porque o edital já foi feito." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo