11/07/2017 18h58
Rede de ensino pode sofrer desmonte
A crise dos Estados poderá trazer um desmonte na rede brasileira de ensino e pesquisas similar ao causado pelo regime militar, que aposentou e afastou compulsoriamente dezenas de professores universitários contrários à ditadura, na década de 70. A opinião é de Glauco Arbix, pesquisador do Observatório de Inovação e Competitividade do Instituto de Estudos Avançados e professor da USP. "As universidades vão sentir, daqui a dez anos, os efeitos na interrupção na formação de novos acadêmicos", diz ele. "Haverá mais professores crus, sem formação rigorosa, como aconteceu quando caçaram toda uma geração durante a ditadura."
O Ministério da Educação não tem um levantamento do impacto causado pela crise dos Estados e pela restrição orçamentária nas universidades, nos centros e institutos de pesquisa espalhados pelo PaÃs. Mas, para se ter uma ideia, apenas na UERJ, 335 profissionais pediram exoneração entre 2014 e fevereiro de 2017, por conta dos atrasos nos salários. "Devido ao reduzido número de funcionários na universidade em função da falta de salários, não será possÃvel no momento informar separadamente o número de docentes e técnicos administrativo (que pediram exoneração)", informou a assessoria de imprensa da UERJ, por e-mail.
Uma dessas acadêmicas que se afastaram é a professora de ciência polÃtica Elizabeth Stein. Americana, ela estudou em seu doutorado a relação entre os militantes e a mÃdia, entre 1974 e o fim do regime militar. Gostou da ideia de lecionar no Brasil e foi contratada pelo Instituto de Estudos Sociais e PolÃticos da instituição, em 2012.
Pouco depois, porém, começaram os problemas. Além das burocracias que a levaram, por exemplo, a esperar dois meses por sua posse na universidade e por anos sua identificação de residente permanente, em 2015 começaram os atrasos no salário. O 13.º foi parcelado, as datas de pagamento começaram a ser sucessivamente postergadas e promessas dos depósitos de salário nunca eram cumpridas.
Sem famÃlia no Brasil e com dÃvida estudantil nos EUA, se viu sem saÃda. "Foi bem difÃcil", diz ela. "Quando a UERJ começava a pagar, à s vezes tinham cinco depósitos no mês, alguns de apenas R$ 300." Liz, como é chamada, só conseguiu atravessar esse perÃodo graças a empréstimos. "Se eu não tivesse uma famÃlia e amigos tão bons, não sei o que faria", afirma.
A professora de ciência polÃtica voltou aos EUA, onde hoje dá aulas na Universidade de Indiana. "Não vi defesa de teses de alguns alunos e metodologias estatÃsticas que levei a UERJ, hoje não são mais ensinadas", diz.
As informações são do jornal O Estado de S.Paulo
Fonte: Estadão Conteúdo