06/05/2016 09h36
Remédio antimalária dá resultado contra zika
Um medicamento já usado contra a malária pode ser eficaz para blindar o cérebro de fetos contra a infecção pelo vÃrus da zika. Estudos em laboratório mostraram que a cloroquina protegeu neurosferas, estruturas celulares que reproduzem o cérebro em formação, em até 95%. O trabalho de pesquisadores dos Institutos de Biologia e de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto DOr de Pesquisa está disponÃvel na bioRxiv - rede pública de compartilhamento de estudos cientÃficos inéditos, mas ainda não revisados por profissionais independentes.
As estruturas foram expostas ao zika e depois tratadas, por cinco dias, com cloroquina em diferentes concentrações. Os testes mostraram que a droga inibiu a infecção e reduziu o número de neurônios infectados, protegendo-os contra a morte pelo vÃrus. A cloroquina baixou a quantidade de células infectadas entre 65% e 95%, em comparação com as não tratadas.
"Nossos resultados sugerem que a ação da cloroquina contra o zika deve ser imediatamente avaliada in vivo e, se tudo der certo, vai atenuar os danos cerebrais devastadores da sÃndrome congênita do zika e as lesões neurológicas em adultos", diz o artigo, assinado por Rodrigo Delvechio, Stevens Rehen e AmÃlcar Tanuri, entre outros pesquisadores.
"A grande vantagem nessa corrida contra o vÃrus é que a cloroquina já é uma droga amplamente usada e não é contraindicada para grávidas. A ideia é que a pessoa comece a tomar antes de engravidar como forma de proteger o feto desde o primeiro dia", afirmou o diretor do Instituto de Biologia da UFRJ, Rodrigo Brindeiro.
Ele ressaltou que é preciso fazer testes clÃnicos com animais e humanos. Em uma próxima fase, a cloroquina será testada em minicérebros, estruturas celulares mais complexas que as neurosferas, que simulam cérebros de fetos de três meses.
Reativação
Os pesquisadores do Instituto de Biologia da UFRJ também estudam casos em que o vÃrus é reativado no paciente, após alguns meses. "Estamos detectando no nosso laboratório casos de reinfecção. Quero alertar para isso porque tem a ver com o agravamento do quadro clÃnico associado ao zika do ponto de vista neurológico", disse Brindeiro.
No segundo aparecimento dos sintomas, os doentes têm dor articular mais forte, que faz com que o diagnóstico se confunda com chikungunya. O exame mostrou que era zika. Os pacientes tiveram meningite e mieloencefalite. "É difÃcil acreditar em reinfecção porque o vÃrus é, ao contrário do da dengue, extremamente monótono, e os anticorpos já deveriam estar protegendo a pessoa contra uma nova infecção. A gente acredita que é uma reativação do vÃrus", afirmou Brindeiro.
Mortes
Pedro Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas, tem estudado mortes de adultos causadas por zika. Ele investigou três casos de pessoas que desenvolveram encefalites. Os pacientes tinham diabete, lúpus e púrpura trombocitopênica (doença autoimune que destrói plaquetas). "Observamos que algumas pessoas nessas condições, por algum problema ainda não identificado, talvez genético, são mais suscetÃveis a morrer", disse.
A pesquisa, submetida à revista cientÃfica Nature Medicine, mostra que o zika atinge sobretudo os neurônios, mas foi encontrado no coração, pulmão, rins e fÃgado.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo