11/09/2016 10h57
Renda maior pesa no desempenho até dos estudantes das redes públicas
A desigualdade entre a nota dos alunos de escolas públicas pobres e ricas aumentou na maioria dos Estados do PaÃs. Embora o desempenho geral dos estudantes de escola pública esteja melhorando no quadro geral, a diferença de renda está pesando mais no resultado final. O quadro é mais acentuado em Estados do Norte.
A diferença no desempenho desses alunos em LÃngua Portuguesa é maior em 17 Estados do PaÃs em relação a 2009. Isso é o que mostraram os dados da Prova Brasil, a avaliação oficial feita pelo governo federal cujos resultados foram divulgados na quinta-feira. Em Matemática, a desigualdade aumentou em dez Estados.
A equidade na evolução dos resultados educacionais é vista por especialistas como um dos fatores mais importantes para avaliar a qualidade das redes educacionais. O risco é que a escola, em vez de servir como meio de equilibrar desigualdades já existentes na sociedade, possa acirrá-las. No ranking dos dez Estados mais desiguais em LÃngua Portuguesa em 2015, sete estão no Norte.
Especialistas apontam que diversos motivos podem explicar essa diferença no desempenho. Entre eles estão problemas de falta de infraestrutura das escolas nas regiões mais periféricas, carência de aulas de reforço e de professor assistente para os alunos com mais dificuldade, falta de estrutura familiar e até desestÃmulo à permanência dos melhores professores.
Os dados constam de um estudo elaborado pelo Instituto Ayrton Senna (IAS), a pedido do Estado. Para calcular o desempenho dos estudantes, foram utilizadas as notas dos anos iniciais do ensino fundamental (1.º a 5.º) de 2015, com dados de nÃvel socioeconômico de 2013, pois os mais atuais ainda não foram divulgados pelo Ministério da Educação. O Estado do Amazonas aparece no topo do ranking da desigualdade em ambas as disciplinas. Em Matemática, a diferença de pontos é de 37,7, enquanto em LÃngua Portuguesa chega a 48,6.
Essa diferença pode representar mudanças significativas no conhecimento dos estudantes nessas disciplinas. Na escala de proficiência de LÃngua Portuguesa, a média dos alunos mais pobres indica que eles não conseguem, por exemplo, localizar informações explÃcitas em reportagens, propagandas ou reconhecer a relação de causa e consequência em poemas, contos e tirinhas. Já na parcela mais rica, os alunos já conseguem identificar assuntos comuns a duas reportagens e o efeito de humor em piadas, por exemplo. Em Matemática, a média dos alunos mais ricos já demonstra que eles são capazes, por exemplo, de converter uma hora em minutos e interpretar horas em relógios de ponteiros, diferentemente dos estudantes de instituições mais pobres.
O diretor de articulação e inovação do IAS, Mozart Neves Ramos, ressalta que essa diferença na oferta de ensino pode piorar a desigualdade já existente na sociedade. "Em vez de ajudar a compensar as possÃveis diferenças de oportunidades que o nÃvel socioeconômico acaba impondo aos estudantes, o sistema educacional acaba reforçando ainda mais essas distorções", diz. Para o economista e professor do Insper Sérgio Firpo, é importante que os gestores não se preocupem apenas com a média geral do Ideb, mas com as diferenças entre as escolas. "É possÃvel aumentar a média sem fazer com que todo mundo melhore por igual e isso parece ser a principal lição que esses dados mostram", diz.
Fatores - O nÃvel socioeconômico é um dos fatores que mais impactam o desempenho da escola, mas não define o destino dessas unidades. CaracterÃsticas como oferta de reforço escolar, menor rotatividade de professores, número de falta dos alunos e até o acesso prévio à pré-escola ou à creche podem fazer com que a unidade melhore, ainda que em condições de pobreza.
É o que aponta um levantamento realizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), feito também a pedido do Estado. O Cenpec utilizou os microdados do Ideb de 2009 a 2013, mostrando as caracterÃsticas das escolas que apresentaram melhora ou piora na nota neste perÃodo. Uma alta na proporção de alunos de classe D e E pode alterar a nota da escola: a cada 1% a mais de estudantes nessas faixas, em relação aos de classe A e B, a estimativa é de que haja uma redução de melhora na nota em 4%.
Se os alunos repetiram alguma série, também há mais chance de uma nota mais baixa: 3,3%. Mas um dos fatores que mais afetam a melhoria dos estudantes está relacionado à escola: se a unidade oferecer reforço escolar, a chance de elevar a nota é de 48,4%. Tão importante quanto o reforço são as faltas dos docentes. Com elas, a chance de melhorar a nota cai 19,1%. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo