26/04/2021 20h00
Salles legitimou ação de criminosos, não do servidor público, diz delegado da PF
Afastado do comando da PolÃcia Federal no Amazonas, o delegado da PF Alexandre Saraiva reafirmou nesta segunda-feira, 26, as crÃticas que disparou contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, alvo de uma notÃcia-crime enviada por ele ao Supremo Tribunal Federal.
Em comissão realizada pela Câmara dos Deputados para discutir o assunto, Saraiva disse que Salles decidiu se colocar ao lado dos madeireiros a partir da avaliação de duas toras de madeira, quando estava diante da maior apreensão de madeira ilegal já feita pela PF em toda história.
"Não se pode, com análise de duas toras, anular todo esse trabalho que foi realizado pelos peritos da PolÃcia Federal. Se é para criticar, que se colocasse uma equipe técnica do Ibama para fazer verificação da área", declarou o delegado aos deputados.
Saraiva disse que existem aproximadamente 40 pontos na região que foram alvos de apreensão de madeira, mas apenas dez pessoas apresentaram documentação até o momento, com o objetivo de tentar retirar o material. "Nós temos mais de 70% da madeira apreendida que não apareceu dono, ninguém reivindicou. Como é que o ministro pode dizer que aquilo ali está tudo certo e que a PolÃcia Federal está errada?", questionou. "A principal empresa que está na região recebeu mais de 20 multas do Ibama, deve aproximadamente de R$ 9 milhões. O senhor ministro fez uma inversão, tornou legÃtima a ação dos criminosos e não dos agentes públicos. Em linhas gerais, sendo bem conciso, foi isso que nos motivou a fazer essa notÃcia crime."
Saraiva, que foi afastado do cargo após a denúncia contra Salles, apresentou detalhes das áreas onde a madeira foi apreendida e afirmou que "não como essa madeira ser legal, sob nenhuma hipótese".
No sábado, 24, o delegado publicou em seu perfil no Twitter uma foto da placa que recebeu do efetivo da PF no Amazonas e afirmou: "Honra maior não existe".
"Demonstrou coragem, atitude e profissionalismo, desde os trabalhos mais simples à s mais complexas operações, sendo reconhecido por seu brilhante trabalho em defesa da Amazônia e da PolÃcia Federal, colocando esta Superintendência em destaque nacional e internacional", registrou a homenagem.
Saraiva foi substituÃdo no comando da PF no Amazonas pelo delegado Leandro Almada, que já atuou como seu número 2 e foi responsável pelo grupo de investigações ambientais sensÃveis na superintendência.
A troca no comando da unidade foi confirmada um dia após Saraiva enviar ao STF notÃcia-crime contra Salles por obstrução de investigação ambiental, advocacia administrativa e organização criminosa. A justificativa era de que o delegado já havia sido sondado sobre a mudança.
Ao Estadão, o delegado afirmou que recebeu a ligação de um amigo sobre uma audiência. Saraiva diz que não foi comunicado antes sobre sua saÃda do comando: "Só tem duas formas de me comunicar oficialmente - ou meu chefe me liga, pelo princÃpio da hierarquia, que é o diretor-geral, ou publicação no Diário Oficial".
Saraiva passou quatro anos na chefia da PF da Amazonas. Em 2019, o delegado foi o pivô da primeira crise entre o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro e o presidente Jair Bolsonaro, em 2019.
Fonte: Estadão Conteúdo