04/12/2016 16h18
'Se me ama, me deixa ir em paz', disse Gullar à esposa
O poeta Ferreira Gullar, ao sentir seu quadro de saúde se agravar por causa de uma pneumonia, pediu à mulher, a também poeta Claudia Ahinsa, para não sofrer intervenções que prolongassem sua agonia. A alternativa dos médicos era que ele fosse entubado.
"Se você me ama, não deixa fazerem nada comigo. Me deixe ir em paz. Eu quero ir em paz", pediu à quela que era sua companheira havia 22 anos. "Foi uma decisão muito dura para nós, para a famÃlia e para mim. Mas era o que tinha de ser feito", disse Claudia, muito emocionada.
Gullar sentiu-se mal na madrugada de 9 de novembro. Com intensa falta de ar, foi levado para o Hospital Copa D'Or. Os médicos diagnosticaram pneumotórax, a entrada de ar na pleura,a fina camada que recobre os pulmões. O problema era um reflexo do seu tempo de fumante, ainda que estivesse livre do cigarro há mais de 30 anos.
O ar na pleura comprime o pulmão e o faz murchar. Nos 25 dias de internação, os médicos trataram a lesão na pleura. Instalaram um dreno, para a retirada do ar. E esperavam o pulmão expandir para liberá-lo. "Estava tudo dando certo. A pleura estava fechando, o pulmão estava expandindo. Eles tirariam o dreno nos próximos dias e ele já receberia alta", conta Claudia.
Claudia conta que o marido tinha boa saúde. "No domingo, três dias antes da internação, tÃnhamos ido ao cinema, passeado. Não tinha nada no coração, indisposição para nada. Essas doenças são silenciosas", afirmou.
O casal imaginava que a internação seria curta. Preferiu não alarmar os amigos. Com o passar das semanas, Claudia começou a contar a um e outro sobre a internação. Nas primeiras semanas, Gullar escreveu de próprio punho a crônica semanal publicada na Folha de S. Paulo. Depois, com o agravamento do quadro, passou a ditar o texto para a mulher. "Ele era poesia pura. A poesia está aÃ. A obra vai ficar", afirmou.
Gullar será velado na Biblioteca Nacional a partir das 17 horas de domingo (4). Pela manhã, haverá um cortejo até a Academia Brasileira de Letras. O poeta será enterrado à tarde, no Mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista.
Fonte: Estadão Conteúdo