21/08/2020 10h40
Síndrome que afeta crianças e adolescentes e pode ter relação com a covid-19
Faz pouco tempo que o Brasil começou a monitorar e relatar casos da sÃndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P), quadro potencialmente grave que afeta crianças e adolescentes e pode estar relacionado à covid-19. Por enquanto, pouco se sabe sobre esse quadro clÃnico, que apresenta diversos sintomas, atinge vários órgãos do corpo e, se não tratado correta e precocemente, pode matar.
Para entender o que já se sabe a respeito da SIM-P, a reportagem conversou com Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), e Saulo Duarte Passos, médico e professor titular de pediatria da Faculdade de Medicina de JundiaÃ. Confira a seguir.
Descrita como sÃndrome inflamatória multissistêmica (SIM-P), o quadro clÃnico é, possivelmente, uma reação grave e tardia à infecção pelo novo coronavÃrus. A condição pode afetar crianças e adolescentes de 0 a 19 anos, mas há Estados brasileiros que monitoram o quadro até 21 anos.
Os primeiros relatos foram registrados em paÃses da Europa no final de abril, quando os serviços de saúde do Reino Unido e da França reportaram alguns casos. No começo de maio, foi noticiado um número de 15 crianças hospitalizadas em Nova York (EUA). Mais recentemente, começaram a ter registros no Brasil. Hoje, estima-se que haja mais de 300 casos em todo o mundo. No Brasil, o Ministério da Saúde publicou nota de alerta sobre a sÃndrome em maio e passou a fazer o monitoramento em julho.
Geralmente, a febre é o primeiro indÃcio da condição, que pode estar acompanhada de dor no corpo, fraqueza muscular, dor de garganta, de cabeça e abdominal, além de diferentes manifestações gastrointestinais. E como o próprio nome diz, a sÃndrome é multissistêmica é pode afetar vários órgãos e sistemas do organismo, como coração e sistema nervoso central.
Há, ainda, relatos de conjuntivite e manchas ou erupções vermelhas na pele. "Isso vai progredindo e algumas crianças evoluem para choque, que é condição de maior preocupação e gravidade, além da hospitalização que motiva entrada em UTI", diz Sáfadi.
Por enquanto, as evidências cientÃficas são inconclusivas quanto a uma relação de causa e efeito entre a covid-19 e a SIM-P. Sabe-se, porém, que a maioria das crianças e adolescentes identificada com a sÃndrome foi infectada pelo novo coronavÃrus. Até o momento, fala-se em possÃvel relação temporal, porque a condição clÃnica surge algumas semanas após um quadro de covid-19, mesmo que tenha evoluÃdo bem.
SÃndrome de Kawasaki
O médico Saulo Duarte Passos explica que a SIM-P tem algumas caracterÃsticas com a sÃndrome de Kawasaki, já conhecida, que ainda não tem causa definida. "Uma das teorias é que ela seria causada por coronavÃrus (grupo de vÃrus), mas não se confirmou na prática. Só teve um trabalho que correlacionou, mas não sustentou. Com o número de casos devido à pandemia do novo coronavÃrus, se aventou novamente essa hipótese." Ele também é membro do grupo Rekamlatina, que reúne pesquisadores da América Latina para o estudo da sÃndrome de Kawasaki.
Em Jundiaà (SP), onde atende casos de Kawasaki, Passos relata que o hospital universitário costumava ter um ou dois casos da sÃndrome por ano. Nos últimos sete meses, foram sete, dos quais três tiveram correlação com a covid-19 e desenvolveram SIM-P ao mesmo tempo. Dois desses casos precisaram de internação na UTI por longo perÃodo.
Tratamento
O tratamento varia de acordo com a situação da pessoas, mas além de cuidar de sintomas, como febre e dor de cabeça com antitérmicos e analgésicos, o tratamento é feito com modulador da imunidade e anticoagulantes, por exemplo. O manejo clÃnico tem tido êxito, com a maioria das crianças se recuperando e raros óbitos.
Segundo os médicos, ainda é muito cedo para documentar sequelas, pois os casos são novos e precisaria de tempo maior para avaliar a evolução das crianças e adolescentes após a alta hospitalar. No entanto, pela forma como a sÃndrome afeta o corpo, é possÃvel que deixe marcas pulmonares, cardiovasculares ou neurológicas.
Fonte: Estadão Conteúdo